segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O país dos artesãos

Desde que chegamos aqui, eu e a Juliane temos notado algo curioso no dia a dia francês. Esse é, sem dúvida, um país de artesãos. Como assim? Já comentamos isso em outros momentos, mas o mais comum aqui é encontrar lugares que se orgulham de produzir o melhor presunto, o melhor baguete, o melhor croissant e por aí vai. Mas o que não comentamos é que nesses lugares, antes de afirmar que fazem a melhor gororoba, eles reivindicam o título de artesãos. Ou seja, não se trata de um padeiro, mas sim de alguém disposto a viver pela sua arte: a arte do baguete.

Agradecemos, é claro, pelo fato de que o pós-estruturalismo das artes não chegou nos talentos dos padeiros franceses – sabe-se lá o que poderia vir daí. Mas é estranho pensar que eles são capazes de se reivindicar como artesãos ainda hoje.

Digo isso porque a história dos operários franceses, da Revolução Industrial aqui, tem um toque um tanto quanto inusitado. Aqui havia um amplo mercado de trabalho, lá pelo século XVIII, focado nos artesãos. O artesão era aquele encarregado de um ofício específico (digamos, por exemplo, preparar pão). Para isso ele contava com inúmeros ajudantes e lhes pagava com comida, lugar para morar e vestir – não muito diferente da escravidão. Mas havia algo mais: o artesão passava adiante o segredo de sua arte (fazer pão) para os seus ajudantes, que na verdade nada mais eram do que aprendizes. Assim, um passava para o outro o segredo do ofício. No capitalismo moderno, momento em que entra o trabalho assalariado na jogada, esse artesão especializado percorreu dois caminhos: ou se especializou tanto que passou a gerenciar outros trabalhadores, ou simplesmente seu trabalho ficou obsoleto e ele passou a ser um peão na linha de produção.

Contudo, alguns ofícios na França mantém ainda a ideia de chamar o trabalhador assalariado de “artesão”. Provavelmente isso lhes garante prestígio e um inusitado exemplo disso é que aqui perto da nossa rua tem a Associação dos Artesãos do Táxi. A gente chamaria isso de Sindicato dos Taxistas, mas tem uma coisa maluca aqui: afirmar que o seu trabalho artesanal é muuuuuito superior ao trabalho feito por “qualquer um”. É por isso que os doces nas pâtisseries são lindíssimos, é por isso que os baguetes ganham prêmios e os supermercados têm sommeliers para nos ajudar a escolher o vinho nosso de cada dia.



A valorização do artesão aqui chega às raias do surreal quando a gente adentra nos preços. Uma ida na loja de congelados mais próximos e encontramos, por exemplo, um filé de porco congelado por 17 euros o quilo (sim, um assalto). Se formos do outro lado da rua, no supermercado, eles oferecem esse mesmo filé já cozido num molho pronto por...17 euros o quilo. Comprar uma pizza congelada? Cerca de 3 euros. Comprar os ingredientes para fazer a pizza em casa? Quase 9 euros. A mesma coisa notamos com carnes também. Comprar a carne congelada sai mais barato que comprar carne fresca – o que não é exatamente uma surpresa. Mas comprar o prato de carne congelado sai mais barato que comprar a carne para cozinhar em casa. Nas feiras de produtos, por exemplo, ao contrário do Brasil, eles são bem mais caros que nos supermercados. Em todos os lugares, a mesma lógica: o trabalho manual (do artesão) tem mais valor que o trabalho industrializado (o que se reflete no seu preço). Assim, a ideia de economizar aqui cozinhando em casa nem sempre se verifica dependendo do prato que você faz.

Comentei com a Juliane que acho que isso tem um pouco a ver com estarmos numa sociedade já bastante industrializada, onde esse processo de industrialização de alimentos tá anos luz à frente do Brasil. Aqui se encontram alimentos processados de todas as formas, tipos, tamanhos e origens (escargot congelado por 3,95 na loja de congelados mais próxima). No mês passado chegamos a comprar sachês de purê de batata prontos. Os chocolates industrializados são ótimos e baratos... Porém, quando se chega na parte do trabalho manual e delicado, se reivindica o valor do artesão e de seus segredos. Como na época das corporações de ofício, essa figura dedica-se integralmente a fazer do trabalho dela uma obra de arte. E para consumir essa arte, o preço pode ser (e na maioria das vezes é) maior. No supermercado, a baguete pronta custa 0,40 centavos. Na boulangerie artesanal, 0,95 centavos.

No último sábado fomos num festival que ocorreu no parque André Citroën, a algumas quadras daqui de casa. Lá vimos que um dos grupos organizadores era uma associação de artesãos internacional que combatia a presença da agro-industria e dos intermediários nos processos de produção. Era bem interessante e eles até tinham uns sucos brasileiros (cheios de goiaba, mas ok). Mas novamente a ideia do artesão falava mais forte: eles não são trabalhadores. Eles fazem arte. E querem ter isso reconhecido na França e no mundo. Esse tipo de distinção deve dar uma minada na solidariedade de classes deles...


Assim, a gente vai vendo, pouco a pouco, que as noções francesas sobre o trabalho são bastante diferentes das nossas. Entre artesãos/artistas e operários, estamos numa sociedade bem mais industrializada e que nos oferece, no frigir dos ovos, um passeio por uma sociedade de consumo diferente da nossa. Que valoriza o trabalho manual em detrimento do trabalho industrial. E que reconhece nisso uma tradição de tempos mais antigos do que o nosso.    

domingo, 19 de outubro de 2014

Lapin: uma experiência

Já postamos aqui a nossa receita de Coq au vin algumas semanas atrás, o "galo no vinho" deles, que fizemos com frango mesmo porque galo, bem... soa estranho. Depois disso, chegamos a nos aventurar pelo Boeuf Bourguignon, que no fundo é uma carne de panela cozida no vinho (e que tem seu valor). Ontem, fomos um pouco mais longe na culinária francesa e fizemos um Lapin au vin blanc, que em bom português é "Coelho ao vinho branco".

Confessar-vos-ei que fui a entusiasta da empreitada (apesar de sentir uma certa vergonha em comer o dito). O Fernando ponderou mas eu insisti: quando vamos poder comer lapin de novo? Nunca. Todos de acordo, achamos essa receita aqui que nos pareceu ok (e não segui à risca, claro, porque eu nunca sigo à risca uma receita). Temíamos o preço da carne, mas fomos surpreendidos com uma promoção: de 10 por 6,50 euros uma bandeja com quatro coxas do seu lapin, mais do que suficiente para o prato. Mas vamos à receita em si:



Ingredientes:

4 coxas de lapin (depende da fome da galera e do acompanhamento)
50 gramas de bacon defumado
1 taça de vinho branco ( o indicado é o Muscat, mas dá para substituir por outro vinho branco não muito ácido)
1 cebola
1 colh. manteiga
1 colh. azeite de oliva
1 buquê garni (no post sobre o Coq au vin falamos dele: é um combinado de ervas específicas)
1 colh. pequena de mostarda
1 tablete de caldo de galinha diluído em 500 ml d'água
100 gramas de cogumelo Paris
1 caixinha de creme de leite
Farinha de trigo, sal, pimenta preta.

Modo de preparo:
Aqueça a manteiga e o azeite em uma panela, frite o bacon. Assim que eles estiverem douradinhos, retire e reserve. Na mesma panela, com a gordura do bacon e da manteiga/óleo, frite os lapins e a cebola até dourar. Depois de dourados, mantenha-os na panela e salpique sal, pimenta e farinha de trigo (pouco) nas coxas. Feito isso, baixe o fogo, coloque o vinho, a água com o caldo, a mostarda e o garni. Deixe cozinhar por cerca de 1h30, sempre cuidando para não secar. Caso seque, coloque mais água. Depois desse tempo, coloque os cogumelos fatiados e o bacon que você havia reservado. Cozinhe mais uns 30 minutos. Passado esse tempo, retire as coxas e reserve. Coloque o creme de leite e deixe ele reduzir um pouco. Depois, devolva as coxas para a panela e voilá! Está pronto o Lapin au vin blanc. Nós fizemos como acompanhamento batatas, mas arroz também seria uma boa.




O nosso veredito de ontem foi mais positivo do que negativo: o molho é delicioso, e pensamos que o coelhinho pode ser substituído por frango, por exemplo. Mas o lapin em si não ganhou fãs aqui não. Se a princípio ele parece uma carne suave, conforme você vai comendo percebe que ela não é tanto assim e tem um sabor bem característico. Além disso, utilizamos o buquê garni pronto (como um tablete de caldo de galinha): muito condimentado e salgado. Mas o pior foi hoje: dia dedicado a saborear uma azia toda especial (salve estomazil!), que credito sobretudo ao lapin e ao garni. 

O que aprendi sobre isso? Sem lapins e garnis condimentados. O que tenho aprendido até agora sobre a culinária local? Cozidos com vinhos e conhaques são uma grande pedida por aqui. Sem coelhos e sem garnis, daqui a pouco estou pronta para outra.


sábado, 18 de outubro de 2014

Estudando em Paris

Nessa última semana conseguimos retomar o ritmo de estudos em Paris. A Juliane está fazendo uma disciplina na Paris 4 enquanto eu ando vendo algumas palestras. No geral, nos sobra bastante tempo para estudar fora da universidade - algo que parece ser comum entre os franceses. O lance aqui é menos sala de aula, mais estudo. Como operacionalizar isso? Isso a gente ainda não sabe. Mas o lance aqui é reparar principalmente na diferença da didática entre professores e alunos.

A aula aqui é, via de regra, uma palestra. A nossa ideia de aula expositiva e dialogada não costuma ser muito comum por aqui. O professor fala e você tem toda a liberdade para interagir, mas o que notamos é que entre os franceses DEUSULIVRE interromper o professor com alguma pergunta. Depois ele vai dar um tempo para isso. Como uma palestra. Nós somos acostumados com um estilo mais informal de aula, fruto talvez de uma geração que leu Paulo Freire - e os franceses não.

Mas é claro, isso não permite a gente a elencar o tipo de aula em qual é melhor e qual é pior. A vida acadêmica muda de realidade para realidade, mesmo que de forma sutil. Isso porque os códigos culturais de reverência ao saber são diferentes em cada situação e, portanto, a gente acaba adotando esses códigos ao longo da vida universitária. Se os franceses não primam pela informalidade, não dá para pensar que justamente no meio acadêmico isso seria diferente. E, além disso, há o peso da tradição aqui: a Sorbonne foi criada em 1297. As diferentes unidades da Universidade de Paris carregam junto com isso o peso de mais 700 anos nas costas! Logo, o espaço da informalidade é bem limitado... No final das contas, a Sorbonne é muito mais tradicional que qualquer universidade brasileira. Por outro lado, o ensino nela é bem mais formal do que estamos habituados.

Há que se citar também o College de France. Imaginem isso: uma universidade aberta para todos que tiverem tempo para ver suas aulas. Ela foi criada em 1530 (cerca de 300 anos antes da primeira universidade brasileira) e atualmente seu objetivo é simples: oferecer cursos e seminários abertos para o público. Nessa última sexta-feira fui ver uma conferência da professora Michelle Perrot sobre a Primeira Guerra Mundial e o amor (o título era ótimo: "a guerra virou o amor de ponta cabeça", ou algo assim). Palestra sensacional, com uma historiadora sensacional, mas o mais interessante é que ela era no meio da tarde e estava lotada! Tirando estudantes de História, o que mais se destacava na audiência era uma enorme quantidade de velhinhos (e alguns poucos, mas representativos "loucos de palestra" também). Aposentados que, com o seu tempo livre, veem seminários e palestras, fazem cursos, participam das atividades culturais e intelectuais do College. Juro que me pilhei de fazer alguns cursos ("História Intelectual da China" e "História da Escrita na Europa Moderna", com o Roger Chartier).


Mas o mais legal que temos visto na nossa vidinha de estudantes em Paris tem sido as bibliotecas. Cada uma é um sonho maior do que a outra. A Gulbekian, que a Juliane já falou, tem sido a nossa favorita - tanto que temos cartões da dita cuja para tirar livros. Ela é uma biblioteca lusófona em Paris, ficando na fundação que tem o mesmo nome. Também tem a biblioteca do Centre d'Histoire Social, que é muito incrível porque tem um sensacional arquivo de documentos sindicais franceses e uma enorme coleção de estudos sobre a História do Trabalho (muito amor!). E essa semana, por sua vez, demos um pulo na biblioteca mais próxima do nosso distrito, a biblioteca municipal do 15éme. Admito que quando fomos lá, não consegui nem pensar em estudar dada a enorme quantidade de gibis e graphic novels da biblioteca. Mas na próxima vou dar uma estudada, vou sim...


Até porque, a vida de estudante em Paris é entrar em contato com tudo ao mesmo tempo. A impressão que passa é que não há ponto cego e que estamos, de fato, no coração do mundo. Que não há o que não queiramos saber que não possamos encontrar nessa cidade. É uma outra visão sobre o mundo do saber... mas se tivesse um pouquinho mais de zueira, seria perfeito!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A saga do Louvre - parte I (bis)

Primeiro, uma explicação, o título do post: sendo uma continuação do post de ontem, por que ele não poderia se chamar "A saga do Louvre - parte II"? Bem, porque esse provavelmente será o título do post após a nossa segunda visita ao Louvre. Mas então por que "bis"? Essa é uma singela homenagem aos nossos anfitriões, os franceses, que, ao colocar o mesmo número em dois prédios (?), colocam o simpático "bis" para poder diferenciá-los. Assim, você pode morar no "48bis, Rue Vaugirard" (aqui o número vem primeiro), sendo vizinh@ do "48, Rue Vaugirard". Esses franceses são muito engenhosos...(contém ironia).

Segundo, aceitamos que esse monte de museu lin-do é na maioria fruto do imperialismo francês, respiramos fundo, fazemos a crítica e... aproveitamos.

Dito isso, vamos ao que interessa: o texto de hoje. Ontem, o Fernando já narrou a nossa primeira visita ao Louvre, e concordo 100% com o que foi dito, principalmente sobre a parte do Egito e sobre o código de Hamurabi. Para quem, como eu, foi “educad@” vendo Chapolin Colorado ver sarcófagos e uma mumiazinha simpática é um reencontro com a infância e quase uma blasfêmia histórica, mas é impossível não lembrar e rolar uma emoção, nesse caso não só pelo Chapolin, né, gente.

Mas se eu tivesse que apontar o que mais me chamou atenção no andar 0 do Louvre não seria nenhuma obra grandiosa. Foram os egípcios, que na singeleza de um hipopótamo azul, me ensinaram um monte de coisas ontem:

Hippopotame 1.400 a.C

Primeiro, era um hipopótamo decorativo datado de 1400 a.C., isso por si só é algo que muda as noções de temporalidade (algo já pressentido fortemente em outros museus, claro). Segundo, ele era azul-turquesa! Quando falamos dessas coleções do mundo antigo, elas geralmente não tem nenhum cor vibrante em função do desgaste do tempo, das oxidações, etc. e tal. Mas esse azul-turquesa ao longo da sessão de Egito me encantou de cara. E por quê? Por uma curiosidade muito simples: por que a cor ainda está lá? Assim, fui (fomos, porque o Fernando acabou entrando na minha onde de: olha, mais um azul-turquesa!) catando outros objetos da mesma cor que fomos encontrando. E não foram poucos, tanto na sessão de Egito quanto na dos Persas:








Andarilhando, descobrimos que o "azul-verde" se dava em função do "silicato de cobre" (isso tudo estava explicadinho lá em um papelzinho). Imaginamos então, a letrada e o historiador, que o Sr. Silicato era o responsável pela cor e que ele era bastante resistente, afinal, é qualquer coisa de 3000 anos entre nós e eles. Ainda encafifada com a beleza da coloração, descobri hoje, com a ajuda do Google e do Fernando, que essa coloração se chama "Azul Egípcio", uma combinação do seu Silicato com seu Cálcio, considerado o primeiro pigmento sintético. Regozijai, químicos do mundo!

Alguém pode dizer: mas porque diabos ela acha que isso é importante? Isso não serve para nada, e se é para ver alguma coisa em museu que seja um desses famosos aí. Cadê a Mona Lisa? A Vênus de Milo? Bem, primeiro, é a prova de que a beleza do Louvre está também nos detalhes. O hipopótamozinho deles era uma coisinha de nada. Uma coisinha azul de nada. Uma coisinha azul de nada num monte de coisas de milênios atrás.

Segundo é que ao me deparar com aquele objeto, eu aprendi e refleti sobre uma penca de coisas. Imaginar que alguém fez isso, simples assim, lindo, há 3000 anos, bem, é educativo sobre o nosso estar no mundo ("eu não sou nada, nunca serei nada", já disse Álvaro de Campos, e isso é lindo). E ao mesmo tempo, ó que coisa legal - isso foi feito por mãos humanas. É o estar no mundo ao mesmo tempo que estou aqui há muito tempo.

Aí tem toda essa coisa de olhar para o passado que (ao contrário do que o debate despolitizado das eleições no RS e no Brasil vem dizendo!) é um exercício desse estar no mundo mas também de se responsabilizar por ele. De repente é como se aquele hipopótamozinho azul fosse uma forma de pensar que a preservação do passado não precisa ser um ato grandioso. Ele só precisa ser uma maneira de agir sobre o mundo em que vivemos.

Para completar, eu ainda tive uma aula de História e Química ao mesmo tempo! É muita interdisciplinariedade, gente!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A saga do Louvre - parte I

Finalmente, depois de mais de um mês nessa terra, resolvemos ir ao famoso Museu do Louvre. Estávamos com receio das filas que enfrentaríamos e se íamos ter fôlego para encarar o danado. De ambos os medos, o primeiro não se confirmou. Foi muito tranquilo para entrar e se localizar lá dentro - somos péssimos com mapas, mas dessa vez nem nos perdemos. O segundo, bem...digamos que dos 4 andares do museu, hoje visitamos apenas um (e nem era o maior!).

A primeira dificuldade em visitar o Louvre é saber que se tu quiser ver tudo, uma vez não é suficiente. Nem duas. Talvez na terceira, mas é mais certo que na quarta role. Na quinta caso você queira ver alguma sessão com mais detalhes. Depois disso, é para os aficcionados mesmo - ou para quem tem filhos, acompanha idosos ou tem paciência de monge budista. Então, no final das contas, tivemos que ser seletivos e escolhemos começar hoje com uma ida ao mundo antigo (Oriente Próximo, Egito, Grécia e Roma). Mochilas guardadas, máquina na mão, mil ideias na cabeça e nada no estômago - porque esquecemos nossos sanduíches em casa (um erro que eu vou retomar depois).

Antes de chegar na parte de Oriente Próximo, a gente acabou pegando primeiro um desvio e indo parar na parte de esculturas francesas que iam desde a Idade Média até o século XIX. Foi um daqueles desvios massa, porque encontramos coisas que não estávamos procurando e eram sensacionais. Nessa sessão não tinha alguns dos mais famosos, claro, mas a parte medieval causava arrepios pela própria temática (muita escultura fúnebre e sacra), mas também pela estética.

Quando chegamos no final das esculturas, já tinha ido mais de 1:30h no museu...o jeito era ir direto para o Oriente Próximo, que começa com um passeio na escrita cuneiforme. Várias estelas e pedrinhas com os primeiros rudimentos da escrita mesopotâmica, uma doideira. Mas o melhor vem logo a seguir, na parte que trata dos babilônicos: o código de Hamurábi. O Hamurábi era um imperador lá daquelas bandas que fez, segundo se sabe, o primeiro código de leis escrito da história humana. E a vantagem do código era que basicamente o velho Mura garantia que mesmo que ele morresse, o código permaneceria, pois estava escrito em pedra (não que a tal pedra não pudesse ser destruída, mas enfim...). Ali foi lindo, eu tive vontade de lamber a pedra, mas não sabia bem a reação dos turistas em volta. E da guarda do museu, que falava ne pas toucher. Mas segurei o ímpeto. Foi massa! E no restante dessa área, alguns murais assírios, uns objetos de culturas iranianas, fenícias, árabes...tudo isso datando entre 3 a 1 milênio antes do JC, como os franceses costumam colocar.

Contemplando o código do Mura

Exaustos após esse passeio pelo Oriente Próximo, tivemos que optar por comer alguma coisa. Lembram que eu tinha dito que não tínhamos trazido sanduíche, né? O Louvre tem alguns restaurantes na parte interna, então tivemos que recorrer a ele. Estávamos perto de um e descobrimos que nele pagaríamos 19,50 euros por um sanduíche. 39 euros em dois (um pra mim, um pra Juliane). Bateu o desespero, chegamos a cogitar em sair do museu, procurar um baratex ao redor, enfim...até voltar para a casa chegou a ser pensado. Mas antes de tomar medidas drásticas, fomos até outro andar e vimos que tinha um outro restaurante. Esse mais uma lanchonete, cheia de coisinhas para levar. Os preços eram salgadíssimos (uma água, dois cafés, dois sanduíches: 19,40!!!)...mas era a melhor opção no momento. Sem contar que o lugar tinha mesinhas onde deu para fazer um bom descanso e recuperar energias para a outra metade do passeio.

Essa segunda metade começou na parte egípcia que é simplesmente sensacional. Os franceses são um pouco obcecados com o Egito, desde os tempos do século XIX com Napoleão. Quando ele atacou os ingleses e os otomanos lá, ele enviou uma enorme missão científica para roubar pesquisar os artefatos da antiga cultura egípcia. Com isso, milhares de peças chegaram até a França e, é claro, ao Louvre. Porém, depois os ingleses retomaram a região egípcia e passaram a eles roubarem as coisas para eles, colocando elas lá no British Museum. De qualquer forma, lá foi massa também - toda a parte de Egito é contada como um passeio à cultura deles, explorando coisas como instrumentos musicais, brinquedos de crianças, magia, religião, vestimentas, dia-a-dia, arquitetura... a gente chegou a ficar zonzo, mas foi sensacional. Detalhe importante: para quem espera ver múmias, lamento dizer, mas só tinha uma. E era bem meia-boca, nem parecia que ia se levantar e atacar. Novamente, ponto para o British Museum. Mas ainda assim, esse passeio pelo Egito foi sem dúvida a melhor parte.

Múmia egípcia

Restava ainda a parte de gregos, etruscos e romanos. É estranho que essa parte tenha sido colocada assim, tudo junto e misturado. Mas depois percebemos que ela é a menor parte e é inteiramente dedicada a esculturas greco-romanas. Não é que não seja legal, mas essa ideia de compêndio, de juntar tudo numa mesma sessão sem discutir as particularidades...bem, isso é meio entediante. No final a Juliane falou que não aguentava mais ver cabeças por aí - numa referência aos incansáveis bustos de mármore. Não é falar mal, mas talvez tenha sido a parte mais decepcionante do passeio exatamente por não ter preocupação alguma em "contar uma história". Era só uma gigantesca coleção de esculturas greco-romanas sem grandes problematizações. Vale só para entusiastas mesmo. E pela Vênus de Milo, que tá no meio de um corredor onde se encontra rodeada de turistas com máquinas fotográficas.

A Vênus é a altona no meio da galera

Saldo final do primeiro dia da saga? Exaustão. Voltaremos ao Louvre somente depois de nos recuperarmos bem.

Pontos altos:

  • A parte de Egito, é claro.
  • A pirâmide e a área central do museu, tudo lindo.
  • A paisagem do lado de fora também, sensacional.
  • Os quartos das esculturas greco-romanas, que conservam o estilo do barroco francês (cafona e lindo ao mesmo tempo).
  • As esculturas francesas.
  • O Código de Hamurábi!

Pontos baixos:
  • As esculturas greco-romanas.
  • Algumas partes de Oriente Próximo precisavam de mais explicação.
  • A comida lá dentro é cara (mas até aí, não dá para dizer que a gente não sabia).
  • A falta de noção de algumas pessoas que tocam (oi!?) nas esculturas. Dá vontade de cortar a mão deles! Ne pas toucher!!!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O 15e arrodissemnt

Já comentamos aqui anteriormente que Paris é dividida em "arrodissements", distritos que formam um caracol no mapa da cidade e são praticamente uma pequena cidade (dá para viver só no seu arrodissement dependendo de onde você trabalha). O nosso é o 15e, bem localizado (aqui, graças ao metrô, tudo parece bem localizado) e nada turístico, e que tem toda uma vida própria. Para vocês terem a ideia espacial da coisa:


Estamos na rive gauche, portanto, e nosso arrodissement faz fronteira com o 7e, o distrito da icônica Torre Eiffel. Desse forma, a dita é vista de muitos lugares do bairro se você vai do centro em direção ao Sena. Nós, por exemplo, estamos a uns 30 minutos a pé dela, mas é só caminhar umas três quadras que ela já surge no nosso campo de visão.



 Mas para além disso, o 15e, e pelo que vi todos os arrodissements de Paris, tem outras qualidades que fazem daqui um lugar muito especial. Quais? Ora, eles tem parques e bibliotecas (no plural!) nos distritos! 

Há 5 minutos aqui de casa temos a Petite Ceinture, uma antiga linha de trem que hoje é um passeio de 1,5 km entre os Parques André Citroën e o George Brassen. O primeiro, acho que do tamanho da Redenção, com jardins variados, chafariz, uma bibliotequinha, quadras de ping-pong, e muita grama para sentar. O segundo, um pouco menor, mas também uma gracinha.

Petite Ceinture

André Citroën

George Brassen roubada da Wikipédia.
Além desses parques todos, ainda há uma série de pracinhas, as "squares", a cada 100, 200 metros, sem brincadeira. Normalmente, nesses lugares, há uma cabaninha de comida, um pracinha para os pequenos e uma grama verde e flamejante para repousarmos. Ah! E internet! Alguns desses espaços são mais simples, com pouca grama, meio caído, mas via de regra eles têm um grama de matar de inveja qualquer jardineiro.
Square Saint-Lambert
Mas além desses espaços verdes necessários, ainda tem outra coisa que faz daqui um lugar e tanto: bibliotecas municipais. Só no meu bairro são 10! Não conheço todas, mas a mais próxima de nós, a Bibliotèque Vaugirard é um presente dos deuses: com uma boa área de estudo, internet a milhão, jornais do dia, novelas gráficas, livros de receitas, guias de viagem, e uma boa coleção de ficção (encontramos a tradução de Os Sertões aqui, por exemplo: Hautes Terres, la guerre de Canudos). E com uma biblioteca infatil também, bien sûr. Claro que ela não tem um super acervo, afinal é uma biblioteca de bairro, mas é um local de leitura, ou seja, de exposição e interação com o ambiente letrado. Para ficar mais legal, eles possuem uma agenda de eventos, que vai desde degustação de macarrons até encontros com escritores. E toda essa agitação cultural está ali, expostas nas entradas, para você poder escolher o que quer ver.

Bibliotèque Vaugirard
Além disso, temos a Marché Convention, uma feira livre que acontece terças, quintas e domingos. Os preços não são mais baixos do que os do supermercado, mas teoricamente são mais frescos. E aqui feira é assunto sério: aos domingos, por exemplo, a feira lota porque muita gente vai comprar o almoço completo ali, já que eles vendem toda uma série de comidas feitas na hora, como paellas, frango assado, e tudo mais. Além dos produtos frescos como peixes, carnes de gado, lebre, etc. e tal.

Para ficarmos mais felizes com o nosso bairro, hoje vimos que até barzinho sympha tem pertinho da gente (até então achávamos todos caros). O Au Petit Parisiense nos oferece honestinhas pints no happy hour por honestinhos 3,50 euros. E, pasmem, com um atendimento não polido, mas gentil, como a gente ama. Ainda melhor é a coletânea de boulangeries que tem aqui perto, nos obrigando a ter que escolher qual a melhor baguete/croissant do bairro. Não está fácil, minha gente...















terça-feira, 14 de outubro de 2014

A miséria parisiense

Esse é só um relato de quem anda pelas ruas de Paris. Não é tratado sociológico, nem mesmo histórico - que faz muito mais meu estilo. É apenas uma percepção sobre um pouquinho da miséria que a gente encontra em Paris. Tem um quê de desabafo também, mas vocês vão entender quando eu chegar no final...

Em mais de um texto já falamos disso: aqui tem morador de rua, sim. Há miseráveis na Paris do século XXI, tanto quanto havia no século XIX. As noções de miséria podem ter mudado, mas ela ainda segue assombrando as ruas. Já ouvi brasileiros dizendo que essas pessoas, em Paris, estão ali por opção. Dificilmente. O conjunto de moradores de rua que encontramos em Paris parece um tanto quanto heterogêneo e é diferente do que estamos acostumados nas cidades brasileiras. Mas ninguém queria estar ali. Para entender isso, é preciso pensar um pouquinho sobre os tipos de miséria que temos lá e cá.

O primeiro choque de realidade se refere a questão étnica. No Brasil, a imensa maioria dos moradores de rua são negros. O nosso passado escravista tende a ser um dos principais suportes para entender isso. As consequências de séculos de escravidão, da institucionalização do racismo e da construção de sua invisibilidade fizeram com que a miséria no Brasil tivesse também uma "cor". Na França, a situação de abandono está refletida em diferentes tipos sociais. Entre moradores de rua, que pedem dinheiro nas portas de metrô e nas calçadas, estão tanto árabes, brancos e negros. Difícil dizer qual grupo se destaca mais. Em termos religiosos, diria que são as mulheres árabes. Envoltas em véus, elas sentam-se nas escadarias dos metrôs e seguram cartazes com uma ou outra frase escrita. Geralmente algo forte do tipo "J'ai faime", ou "tenho fome". Difícil saber se são imigrantes ou nativos. Um outro senhor, há alguns metros de onde moramos, fica perto de um escritório de assistência social e pede um emprego e/ou tickets de metrô (o desemprego francês chega a mais de 10% nesse trimestre). Na padaria perto de casa fica uma moça com uns 20, 25 anos no máximo, com uma roupa grossa de inverno (às vezes de salto alto) e sentada na calçada, com um copinho onde as pessoas depositam suas moedas.

Em termos de faixa etária, aparentemente aqui é diferente do Brasil. Ou era. Em Porto Alegre, assim como em outras capitais brasileiras, é ainda bastante comum ter crianças pedindo dinheiro. A expansão da escola pública - consequência de programas sociais como o Bolsa Família - ainda não resolveu o problema da miséria urbana entre jovens, adolescentes e crianças. Na França, isso tem se apresentado como uma novidade dickensiana, que reproduz o século XIX em pleno século XXI. Tanto que um dos representantes de Paris, prefeito do 6º distrito, declarou ontem que a mendicância infantil era um problema "sanitário" - referindo-se possivelmente não só à saúde pública, mas também buscando um vocabulário do século XIX para se referir a pobreza. Ficou tão chato que estampou uma das páginas do Direct Matin de hoje.



Quanto aos ambientes, não há tanta diferença em relação a mendicância, mas sim às atitudes. Dentro dos trens da malha metroviária de Paris, é difícil fazer um deslocamento sem que alguém esteja lhe pedindo dinheiro. Em Porto Alegre, os ônibus não deixam mais o pessoal mendigar dentro do coletivo. É cada vez mais raro isso acontecer. No trensurb, já vi gente chamando a segurança do trem para tirar uma pedinte...as pessoas fazem de tudo para não ver a mendicância no Brasil, como se fosse uma lembrança pavorosa da desigualdade social do país. Na França isso não ocorre. Nos metrôs os artistas tocam, cantam, dançam, fazem teatros de marionete (aham! juro!)...e tentam arrecadar alguns cobres. Outros, sem tanto talento, contam histórias tristes. "Tenho fome", "Minha mãe está desempregada", "Preciso comprar remédios". As formas de contar sua própria miséria não são tão diferentes assim entre Porto Alegre e Paris - mas a indiferença parisiense perante os pedintes é muito maior do que a dos porto-alegrenses. Mas se os nativos não são simpáticos, os turistas sempre podem contribuir com algumas moedas (lembrando que na Europa existem moedas de até 2 euros).

O argumento mais xenófobo atribui essa miséria aos imigrantes - dizendo que eles estão destruindo a França. É impressionante como ouvimos esse argumento até mesmo de brasileiros. O argumento mais social fala da crise, lembrando que a França enfrenta hoje um déficit público assombroso, onde todo o PIB não dá conta de pagar a dívida do Estado. A esquerda francesa mais radical não concorda com a política que emana da Alemanha de controle do déficit público e prefere lembrar que a austeridade manteve grandes fortunas intocadas. E independente desses argumentos, Paris segue com pessoas revirando lixo a procura de comida, gente que dorme nas estações de metrô, que faz suas necessidades na rua... que não tem casa e, portanto, se sente desterrada. Se são estrangeiros, essa sensação se torna mais aguda (não sabem a língua o suficiente para se comunicar). Se são nativos, vieram do interior e querem voltar para casa. A miséria não é seu lar.

Paris é linda, não me entendam mal. É rica e deslumbrante, guardando e preservando traços de seu passado glorioso. Mesmo em crise, mantém-se maravilhosa (e vale lembrar que o turismo é uma das poucas atividades econômicas que segue crescendo na França atual). Mas tem se mostrado também como um lugar onde podemos entender melhor a ideia de que a riqueza não pode ser qualificada sem que a pobreza seja contemplada. Até então, os franceses conseguiam - como tantos outros países - empurrar os pobres para além de suas fronteiras. Nos dizeres de Sartre, o inferno eram os outros (ou "a miséria eram os outros"). Mas agora, a miséria não é apenas a dos outros...é a deles também.

De todas essas visões, algumas coisas me fizeram pensar. Em 2013, eu e a Juliane viajamos para Cuba. A ilha caribenha vive de turismo, como se fosse praticamente a única coisa capaz de tirá-la do atraso econômico decorrente da queda do bloco socialista e do bloqueio econômico americano. Lá vimos mais cachorros de rua do que moradores de rua (o que é um bom sinal). Mas eles existiam. Em Santa Clara conhecemos um rapaz que vivia na rua porque economizava para poder viver com sua namorada que era lá para os lados de Baracoa, na outra ponta de Cuba. Também nessa cidade vimos um senhor bastante esfarrapado que andava de muletas e pedia uns trocados para os turistas. Em Havana havia muitos golpes que tentavam pegar uns trocos da gente oferecendo charutos ilegais e espetáculos suspeitíssimos de música cubana. Mas duas coisas me chamaram atenção: uma vez, em Havana, havia uma criança que me pediu um peso quando andávamos na rua. Minha reação foi dizer "não" e seguir andando. Comentei com a Ju que aquilo tinha sido surreal, porque a criança na verdade era normal. Ela não estava suja, maltrapilha...ela não tinha nada daquilo que identificávamos como "miséria" no Brasil. Parecia quase um insulto, uma piada de mau gosto, ela pedir dinheiro. E como eu estava errado. Por mais que se objetive a miséria, foi aqui na França que vi que a miséria é uma condição subjetiva, uma humilhação a qual uma pessoa se encontra por conta da indignidade de não ter o suficiente para sua sobrevivência. Talvez aquela criança nem pudesse ser considerada miserável - e talvez ela mesmo não se pensasse assim -, mas certamente essa condição não podia ser avaliada só por mim.

A outra situação foi pensar no que resta de solidariedade quando a gente se depara com a miséria, mesmo que seja tão difícil identificar. Nessa mesma viagem para Cuba, fomos jantar num restaurante cujo dono tinha trabalhado no Brasil por muitos anos. Ele adorava receber brasileiros, mas acabamos conversando muito mais com os garçons - que em dado momento chamamos para bater papo com a gente na mesa. Um deles, aproveitando que falava com estrangeiros, extrapolava na franqueza e falava que apesar de tudo, o momento presente era melhor do que a década passada. Os anos 90 e início dos 2000 foram terríveis para a economia e para a sociedade cubana. E o garçom nos lembrou disso contando uma história de que na casa dele, apesar de tudo, nunca faltou comida...mas que sua mãe constantemente oferecia o que comer aos vizinhos que nada tinham - especialmente depois de um furacão que atingira a ilha. Engolimos em seco, sentindo uma angústia e soltamos exclamações meio aturdidas de "que bom, que legal"...e ele só salientou: sim, porque...somos cubanos. Somos todos irmãos e temos que ajudar-nos uns aos outros.

Gosto de pensar que aquela conversa me tocou mais do que muitas e muitas aulas, do que muitas e muitas leituras teóricas. A miséria passou a ser um objeto de estudo mais comum para mim, mas também uma sensação de que é preciso perceber a sutileza da miséria. Ela está em Havana, ela está em Paris, ela está em Porto Alegre... Constatar a existência dela, contudo, não é suficiente (embora em tempos obscuros, falar a verdade se não é revolucionário é meio reformista e já tá valendo). É preciso estudar a miséria e ver ela como a outra face da opulência e da riqueza. Uma não existe sem a outra. Uma é o rastro degradante que a outra deixa para poder existir.