Mostrando postagens com marcador brésil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador brésil. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A miséria parisiense

Esse é só um relato de quem anda pelas ruas de Paris. Não é tratado sociológico, nem mesmo histórico - que faz muito mais meu estilo. É apenas uma percepção sobre um pouquinho da miséria que a gente encontra em Paris. Tem um quê de desabafo também, mas vocês vão entender quando eu chegar no final...

Em mais de um texto já falamos disso: aqui tem morador de rua, sim. Há miseráveis na Paris do século XXI, tanto quanto havia no século XIX. As noções de miséria podem ter mudado, mas ela ainda segue assombrando as ruas. Já ouvi brasileiros dizendo que essas pessoas, em Paris, estão ali por opção. Dificilmente. O conjunto de moradores de rua que encontramos em Paris parece um tanto quanto heterogêneo e é diferente do que estamos acostumados nas cidades brasileiras. Mas ninguém queria estar ali. Para entender isso, é preciso pensar um pouquinho sobre os tipos de miséria que temos lá e cá.

O primeiro choque de realidade se refere a questão étnica. No Brasil, a imensa maioria dos moradores de rua são negros. O nosso passado escravista tende a ser um dos principais suportes para entender isso. As consequências de séculos de escravidão, da institucionalização do racismo e da construção de sua invisibilidade fizeram com que a miséria no Brasil tivesse também uma "cor". Na França, a situação de abandono está refletida em diferentes tipos sociais. Entre moradores de rua, que pedem dinheiro nas portas de metrô e nas calçadas, estão tanto árabes, brancos e negros. Difícil dizer qual grupo se destaca mais. Em termos religiosos, diria que são as mulheres árabes. Envoltas em véus, elas sentam-se nas escadarias dos metrôs e seguram cartazes com uma ou outra frase escrita. Geralmente algo forte do tipo "J'ai faime", ou "tenho fome". Difícil saber se são imigrantes ou nativos. Um outro senhor, há alguns metros de onde moramos, fica perto de um escritório de assistência social e pede um emprego e/ou tickets de metrô (o desemprego francês chega a mais de 10% nesse trimestre). Na padaria perto de casa fica uma moça com uns 20, 25 anos no máximo, com uma roupa grossa de inverno (às vezes de salto alto) e sentada na calçada, com um copinho onde as pessoas depositam suas moedas.

Em termos de faixa etária, aparentemente aqui é diferente do Brasil. Ou era. Em Porto Alegre, assim como em outras capitais brasileiras, é ainda bastante comum ter crianças pedindo dinheiro. A expansão da escola pública - consequência de programas sociais como o Bolsa Família - ainda não resolveu o problema da miséria urbana entre jovens, adolescentes e crianças. Na França, isso tem se apresentado como uma novidade dickensiana, que reproduz o século XIX em pleno século XXI. Tanto que um dos representantes de Paris, prefeito do 6º distrito, declarou ontem que a mendicância infantil era um problema "sanitário" - referindo-se possivelmente não só à saúde pública, mas também buscando um vocabulário do século XIX para se referir a pobreza. Ficou tão chato que estampou uma das páginas do Direct Matin de hoje.



Quanto aos ambientes, não há tanta diferença em relação a mendicância, mas sim às atitudes. Dentro dos trens da malha metroviária de Paris, é difícil fazer um deslocamento sem que alguém esteja lhe pedindo dinheiro. Em Porto Alegre, os ônibus não deixam mais o pessoal mendigar dentro do coletivo. É cada vez mais raro isso acontecer. No trensurb, já vi gente chamando a segurança do trem para tirar uma pedinte...as pessoas fazem de tudo para não ver a mendicância no Brasil, como se fosse uma lembrança pavorosa da desigualdade social do país. Na França isso não ocorre. Nos metrôs os artistas tocam, cantam, dançam, fazem teatros de marionete (aham! juro!)...e tentam arrecadar alguns cobres. Outros, sem tanto talento, contam histórias tristes. "Tenho fome", "Minha mãe está desempregada", "Preciso comprar remédios". As formas de contar sua própria miséria não são tão diferentes assim entre Porto Alegre e Paris - mas a indiferença parisiense perante os pedintes é muito maior do que a dos porto-alegrenses. Mas se os nativos não são simpáticos, os turistas sempre podem contribuir com algumas moedas (lembrando que na Europa existem moedas de até 2 euros).

O argumento mais xenófobo atribui essa miséria aos imigrantes - dizendo que eles estão destruindo a França. É impressionante como ouvimos esse argumento até mesmo de brasileiros. O argumento mais social fala da crise, lembrando que a França enfrenta hoje um déficit público assombroso, onde todo o PIB não dá conta de pagar a dívida do Estado. A esquerda francesa mais radical não concorda com a política que emana da Alemanha de controle do déficit público e prefere lembrar que a austeridade manteve grandes fortunas intocadas. E independente desses argumentos, Paris segue com pessoas revirando lixo a procura de comida, gente que dorme nas estações de metrô, que faz suas necessidades na rua... que não tem casa e, portanto, se sente desterrada. Se são estrangeiros, essa sensação se torna mais aguda (não sabem a língua o suficiente para se comunicar). Se são nativos, vieram do interior e querem voltar para casa. A miséria não é seu lar.

Paris é linda, não me entendam mal. É rica e deslumbrante, guardando e preservando traços de seu passado glorioso. Mesmo em crise, mantém-se maravilhosa (e vale lembrar que o turismo é uma das poucas atividades econômicas que segue crescendo na França atual). Mas tem se mostrado também como um lugar onde podemos entender melhor a ideia de que a riqueza não pode ser qualificada sem que a pobreza seja contemplada. Até então, os franceses conseguiam - como tantos outros países - empurrar os pobres para além de suas fronteiras. Nos dizeres de Sartre, o inferno eram os outros (ou "a miséria eram os outros"). Mas agora, a miséria não é apenas a dos outros...é a deles também.

De todas essas visões, algumas coisas me fizeram pensar. Em 2013, eu e a Juliane viajamos para Cuba. A ilha caribenha vive de turismo, como se fosse praticamente a única coisa capaz de tirá-la do atraso econômico decorrente da queda do bloco socialista e do bloqueio econômico americano. Lá vimos mais cachorros de rua do que moradores de rua (o que é um bom sinal). Mas eles existiam. Em Santa Clara conhecemos um rapaz que vivia na rua porque economizava para poder viver com sua namorada que era lá para os lados de Baracoa, na outra ponta de Cuba. Também nessa cidade vimos um senhor bastante esfarrapado que andava de muletas e pedia uns trocados para os turistas. Em Havana havia muitos golpes que tentavam pegar uns trocos da gente oferecendo charutos ilegais e espetáculos suspeitíssimos de música cubana. Mas duas coisas me chamaram atenção: uma vez, em Havana, havia uma criança que me pediu um peso quando andávamos na rua. Minha reação foi dizer "não" e seguir andando. Comentei com a Ju que aquilo tinha sido surreal, porque a criança na verdade era normal. Ela não estava suja, maltrapilha...ela não tinha nada daquilo que identificávamos como "miséria" no Brasil. Parecia quase um insulto, uma piada de mau gosto, ela pedir dinheiro. E como eu estava errado. Por mais que se objetive a miséria, foi aqui na França que vi que a miséria é uma condição subjetiva, uma humilhação a qual uma pessoa se encontra por conta da indignidade de não ter o suficiente para sua sobrevivência. Talvez aquela criança nem pudesse ser considerada miserável - e talvez ela mesmo não se pensasse assim -, mas certamente essa condição não podia ser avaliada só por mim.

A outra situação foi pensar no que resta de solidariedade quando a gente se depara com a miséria, mesmo que seja tão difícil identificar. Nessa mesma viagem para Cuba, fomos jantar num restaurante cujo dono tinha trabalhado no Brasil por muitos anos. Ele adorava receber brasileiros, mas acabamos conversando muito mais com os garçons - que em dado momento chamamos para bater papo com a gente na mesa. Um deles, aproveitando que falava com estrangeiros, extrapolava na franqueza e falava que apesar de tudo, o momento presente era melhor do que a década passada. Os anos 90 e início dos 2000 foram terríveis para a economia e para a sociedade cubana. E o garçom nos lembrou disso contando uma história de que na casa dele, apesar de tudo, nunca faltou comida...mas que sua mãe constantemente oferecia o que comer aos vizinhos que nada tinham - especialmente depois de um furacão que atingira a ilha. Engolimos em seco, sentindo uma angústia e soltamos exclamações meio aturdidas de "que bom, que legal"...e ele só salientou: sim, porque...somos cubanos. Somos todos irmãos e temos que ajudar-nos uns aos outros.

Gosto de pensar que aquela conversa me tocou mais do que muitas e muitas aulas, do que muitas e muitas leituras teóricas. A miséria passou a ser um objeto de estudo mais comum para mim, mas também uma sensação de que é preciso perceber a sutileza da miséria. Ela está em Havana, ela está em Paris, ela está em Porto Alegre... Constatar a existência dela, contudo, não é suficiente (embora em tempos obscuros, falar a verdade se não é revolucionário é meio reformista e já tá valendo). É preciso estudar a miséria e ver ela como a outra face da opulência e da riqueza. Uma não existe sem a outra. Uma é o rastro degradante que a outra deixa para poder existir.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tava aqui de boas...

Tava aqui de boas em Paris, em uma segunda-feira tranquila de trabalho, sem grandes movimentações e novidades. Saímos somente para resolver algumas coisas pela manhã, mas foi um dia comum, ele poderia inclusive ter acontecido em Porto Alegre (não fosse o vento gelado e o sol que não esquenta!). Assim, nasceu um problema: sobre o que escrever no blog hoje? 

Muitas ideias vieram (segundo o Fernando): falar do sol, da miséria parisiense (tem sim, sinhô!), comparar os franceses com os belgas (achei ofensivo), mas nenhuma me cativou. Tive que chafurdar no Facebook (adoro), de onde veio a ideia deste post.

NENHUM voto em Aécio Neves.

Assim, sem cuspe.

É que todo mundo no Brasil está se posicionando, e a gente aqui, comendo baguete, bebendo vinho e comendo queijo.  A gente precisava se posicionar e nada mais fácil do que dizer NÃO ao Aécio Never, ops, Neves. Mas porque dizer não para um cara tão bonito e educado e rico?  Bom, tanto eu quanto o Fernando vivemos os anos FHC. Do ponto de vista da educação, eles forem bem ruins: nenhuma universidade pública criada, pouquíssimos concursos para professor, instituições sucateadas, greves de professores. Somos, afinal, duas coisas: produtos da era Lula-Dilma e professores. Nos tornamos professores nessa mesma era e, portanto, não conseguimos (queremos) um retrocesso nessa área.

O Fernando é um guri de apartamento de Porto Alegre, mas eu, que vim de São Borja e amarrei meu cavalo no obelisco, consigo perceber as maravilhas que a Unipampa e o Instituto Federal fizeram pela cidade e pela educação (e ainda têm para fazer). Esse tipo de investimento é contra-producente para uma lógica economicista. Educação gera gastos e o seu retorno nem sempre se dá dentro da esfera produtiva.  A gente briga muito com o governo Dilma pela sua visão produtivista sobre ciência e educação, mas ainda há uma visão sobre ciência e educação que não larga tudo nas costas da iniciativa privada. A prova disso sou euzinha: graduação em universidade pública, mestrado em universidade pública, doutorado em universidade pública.


Voltamos para Porto Alegre em janeiro. Entramos novamente no mercado de trabalho e aí a dúvida: o que é melhor? Um governo que tem conseguido manter o desemprego em 5% ou um governo que entregou o país com uma taxa de 12%? Um governo que mantém o poder de compra do salário mínimo, ou um que pretende reduzi-lo? Um governo que abre concurso público, ou um que é conhecido pelo seu descaso com a educação? Aliás, vocês viram o índice de rejeição do Aécio Neves entre os professores mineiros? Deem uma googleada. 

A gente não vai votar, mas abrimos votos no Facebook no 1º turno: Luciana Genro, a diva dos cabelos cacheados. Também não votaremos agora, mas achamos que o blog poderia servir como espaço para abrirmos o nosso VETO. A gente já se apavorou com as eleições para deputados federais e estaduais, e nem me fale do senado "essas-mais-de-mesa"! Vai que a gente volta na luta, na cara e na coragem, e precisa enfrentar mais 4 anos de PSDB ainda? 

É, caro leitor e cara leitora, a gente estava aqui de boas, pensando que não adianta votar no PSDB e depois reclamar da educação, viu?!



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ressaca eleitoral

Ontem eu e a Juliane ficamos acompanhando as eleições no Brasil. Dormimos tarde - aqui já eram mais de 2h. E acordamos como se estivéssemos com uma ressaca monstra. Praticamente todos os nossos candidatos perderam (o que a gente esperava) e verdadeiras abominações foram eleitas. Faz parte da festa da democracia, mas a gente esqueceu de tomar um Engov antes.


Acordamos hoje e retomamos a leitura de notícias. Nem eu e nem a Ju fomos na biblioteca de manhã. Preferimos passar o dia em casa, retomando os acontecimentos da noite anterior.

E na França? Bom, na França eles seguem não entendendo nada. O Le Monde, que no final de semana passado chegou a colocar Dilma e Marina na capa (e declarou apoio a Marina Silva inclusive) lançou um vídeo hoje para explicar quem é Aécio Neves. O vídeo é didático e chama o Áecio de "tecnocrata playboy" enquanto mostra que as principais plataformas dele são a denúncia do escândalo da Petrobrás e o fim do intervencionismo econômico. Ainda na parte de notícias, o jornal pergunta "Que s'est il passé?" (ou um "o que aconteceu") ao se referir a Marina Silva, dizendo que ela compunha uma problemática aliança que ia da extrema direita (oi?) à extrema esquerda (oi????).

No Liberation, a matéria é bem mais completa e analisa todo o cenário eleitoral com a opinião de vários especialistas brasileiros. A Marina Silva é lembrada como uma atípica candidata ecologista...mas tirando isso, a matéria funciona como um bom balanço acerca da disputa eleitoral no primeiro turno entre os principais candidatos, sem dar muita bola para os demais. Não recomendo, contudo, olhar os comentários. Parece que na França - assim como no Brasil - o pior das pessoas aflora quando elas vão comentar uma notícia na internet.

O Le Figaro, por sua vez, dá nome aos bois e chama Áecio Neves de "direita tradicional". Além disso, o jornal dá uma zoada na Marina e faz até piadinha, dizendo que a candidata devia ter escolhido o golfinho como mascote de sua campanha (porque ele é bonitinho, dá uma pirueta no ar, mas depois mergulha para as profundezas de novo...). Mas o jornal acredita também que o segundo turno brasileiro será contemplado por uma disputa ideológica...embora eu não tenha certeza se eles sabem o que é ideológico no Brasil.

No Rue 89, nada sobre o resultado eleitoral. E no Direct Matin, a matéria lembra que os partidos tradicionais foram escolhidos (PT e PSDB), mas que ambos estão com o nome manchado por casos de corrupção. O La Croix, que é da direita católica francesa, é o único que fez referência as eleições legislativas, definindo Celso Russomano como um jornalista "defensor dos consumidores" (oi?????), destacando também a eleição de Tiririca e Romário. No L'Humanité, jornal ligado à esquerda, por outro lado, uma interessante definição sobre Marina Silva: socialmente de esquerda, economicamente de direita. Interessante em contrastar o La Croix e o L'Humanité em suas abordagens: enquanto o primeiro anuncia que Dilma terá de enfrentar um segundo turno, o outro afirma que Dilma vai para o segundo turno com grande vantagem.

No geral, os franceses parecem se preocupar apenas com o que rola no Executivo brasileiro. Menos mal...se a corrida presidencial já dá nó na cabecinha deles, imagina depois quando a gente tiver que explicar sobre Bolsonaro, Feliciano, Danrlei, Jardel, Heinze, Lasier e afins...


domingo, 5 de outubro de 2014

Dia de eleições - parte III

Estamos em obras.

Na verdade, estamos ansiosos pelas eleições e vamos tentar madrugar para ver o que se passa nessa terra.

Amanhã a gente volta com tudo. :)


sábado, 4 de outubro de 2014

Top 10: saudades de Porto Alegre

Hoje estamos de aniversário aqui em Paris: um mês longe de casa.  Passada a correria e o encantamento inicial, já dá para sentir saudades de algumas coisinhas que só Porto Alegre nos oferece, e o post de hoje é exatamente para isso: listar aquilo do qual sentimos mais falta. 

1) Dos nossos, bien sûr. Daquelas pessoas que a gente gosta e volta e meia pensa que eles poderiam estar aqui para dividir esses bons momentos.

2) Carne, carne, carne. De gado. Pode ser coxão de dentro, alcatra, entrecot, costela, picanha, vazio.... Pode ser um bifinho na chapa, um churrasco da Giovanaz ou do João de Barro. Uma parilla uruguaia ou o churrasco da Na Brasa. Pode ser um salchipão também! Mas por favor, dona carne, não nos abandone, a gente te ama (em tempo: a carne é cara aqui, mas além de tudo não é o bicho...saudades, carne, nos vemos em 2015).




3) Zueira. A gente anda descobrindo que os franceses tem a zueira deles. Eles adoram piadinhas e trocadilhos. A Juliane comprou um livrinho de receitas desses de supermercado e é cheio de trocadalhos do carilho. É bonitinho. Acho que o Zorra Total ia fazer sucesso por aqui.

4) Feijão. Pode ser até o do Zaffari sem sal, a gente tempera. Aqui eles têm feijão em lata e, nos mercados Bio, se encontra feijão vermelho (o "carioquinha"). Mas feijão preto, nem pensar. Não tenho palavras para dizer o quanto não daríamos por um ala minuta do Tudo pelo Social. 


5) Mamão papaya. Aqui a opção de frutas é bem vasta, tem quase tudo o que temos aí (inclusive bergamotas!), menos o amado mamão papaya. O Fernando admite que não sente a menor falta disso, mas mamão é vida, gente. Esses parisienses não sabem o que estão perdendo!

6) Vinhos tintos argentinos e chilenos. Mesmo temendo ser julgada e queimada em praça pública, confessar-vos-ei que depois de tanto tempo tomando de bons a ótimos vinhos argentinos (chilenos conheço só honestos, imagina os ótimos!), não é fácil viver sem eles e me acostumar com os frutados daqui. Questão de tempo, penso eu. Prometo não desistir (até porque, o Fernando tem zoado muito meu desdém pelos vinhos franceses).

7) Cama.  Saudades que se limitam ao Fernando. Minha coluna está achando tudo isso aqui uma festa, e tem se comportado como se tivesse 25 anos. A dele também, mas ele queria achar algo para reclamar.

8) Pimenta. Comemos muita pimenta no Brasil e aqui não passamos por nada apimentado. A comida é muito temperada (e com pouco sal; é o paraíso do hipertenso). Mas pimenta em fruta, não é fácil de achar. Aí tem aqueles molhinhos prontos - inclusive tailandeses, indianos, chineses, vietnamitas...mas não é a mesma coisa.




9) Desodorante. Saudades, desodorante. Não aqui em casa, que todo mundo usa. Mas na rua, na chuva, na fazenda, numa casinha de sapê...faz falta para o pessoal daqui. As peles maravilhosas, os casacos deslumbrantes e o budum de dias sem tomar banho: je n'aime pas!

10) Chimarrão. A Juliane não tem sentido falta de chimarrão porque trouxe cerca de 5kg de erva-mate para Paris (ainda restam 2,5 kg!). Logo, não teria muito porque colocar esse item...mas para quem tem medo de ficar sem erva, é bom lembrar que tem a loja "Coisas do Brasil" onde o pessoal vende um mate meia-boca que vai dar conta do vício quando acabarem os pacotes. 

À bientôt, gurizada!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Porque os franceses não usam Orkut...


Esse ainda é um blog sobre zueira. Um blog sobre brasileiros – que nasceram com a zueira no DNA – que estão no coração do mundo e têm que lidar com o fato de que aqui a zueira é coisa de selvagem, de bárbaro, ou (pior ainda) de Zé Povinho. Mas azar deles, porque a gente queria deixar também uma homenagem ao Orkut ("um beijo, Orkut, onde quer que você esteja"). E a ideia é muito simples, caros e caras leitores: mostrar porque o Orkut não tinha mesmo como funcionar com os franceses.

Primeiro: o mais óbvio, né? Falta zueira por aqui. Um francês nunca entraria numa comunidade “Anão vestido de palhaço mata oito”. Não é nem que eles não tenham senso de humor, mas quem lembra da comunidade sabe que ela se destinava a uma coletânea de manchetes bizarras de jornais e internet (como, por exemplo a que coroava a comunidade com a foto: “Búfalo mantém família refém por 8 horas”). Ainda não vimos nada que se parecesse com nossos jornais populares aqui. Os jornais são sérios. A política é séria. Até os programas de humor parecem sérios. E com tanta seriedade, como eles conseguiriam manchetes escabrosas e bizarras para o divertimento e procrastinação geral? (para mais comunidades, clique aqui)

Segundo: o pessoal aqui é muito direto em suas colocações.
 - Pardon, monsieur. Excuse-moi...s’il vous plait, vous parlez anglais ? Mon français n’est pas très bon et…
 - Non.

Ou seja, aqueles tópicos gigantescos do saudoso Orkut, com discussões infindáveis, não vingariam aqui. Existe um senso de objetividade entre os franceses que não importa qual pergunta a gente faça para as pessoas, as respostas são sempre muito diretas. Em certo momento, pensamos que isso era uma falta de gentileza, ou até mesmo uma grosseria. Até pode ser, mas a verdade é que eles não veem porque serem prolixos. Exceto na escrita.

Terceiro: eles não escutaram o pior (e o melhor) da música brasileira dos anos 90. Comunidades como “Tô fazendo amor com 8 pessoas”, “Drogas alternativas”, “Adoro Pepê e Neném”, “Pareço legal, mas sou pagodeiro”, “Não sei individualizar duplas” e tantas outras que remetem aos traumas auditivos sofridos por uma geração inteira (para mais comunidades, clique aqui).

Quarto: eles são excessivamente honestos. Sim, eles constantemente alertam para os pickpockets no metrô – o nosso popular “batedor de carteira”. Mas também! Essa gente anda com bolsa e mochila aberta o tempo todo, deixa elas nas mesas dos cafés enquanto vão ao banheiro, saem e deixam o pagamento em cima da mesa, sem conferir se o garçom pegou ou não... A gente fica pasmo! E aí a dúvida: como essa gente seria capaz de fazer um fake no Orkut? Fake, pra quem não lembra, era um perfil falso que as pessoas faziam para dar uma olhada naquele gatinho sem ele saber que você tava olhando ele. Ou algo assim. Alguns faziam os fake só por zueira mesmo, fazendo perfis de artistas, celebridades e até mesmo de amigos que já tinham perfil no Orkut. Claro que se você estivesse incomodado com algum fake, você podia clicar na opção “report as bogus”. Assim, o perfil falso era denunciado e avaliado por uma equipe de especialistas – e enquanto isso, a foto do perfil virava uma sombra atrás das grades. Muito bom gosto!



Quinto: eles não dariam valor a mecanismos sensacionais como os “depoimentos”. Além de objetivos, os franceses parecem não gostar dessas declarações públicas de afeto. Até agora, uma das coisas mais divertidas a se fazer num supermercado parisiense é tocar o braço de um nativo e ver a sua reação. Eles ficam realmente desconcertados! Toque físico, mesmo que seja um tapinha nas costas, é coisa de selvagem! Sendo assim, é claro que eles não gostariam de compartilhar publicamente um depoimento de 2048 caracteres sobre uma pessoa. É exposição demais, gente!

Sexto: O sistema do Orkut em ranquear as pessoas por categorias como “sexy”, “cool” e “confiável” não vingaria nunca numa sociedade onde as coisas não parecem ter tons de cinza. A ideia de que alguém seria 90% sexy, 70% legal e 80% confiável não passa pela cabeça dos franceses. Ao que tudo indica, aqui ou a pessoa seria 0%, ou seria 100%.

Sétimo: Talvez os franceses se adaptassem aos scraps, que era uma forma de comunicação rápida e direta pelo Orkut. Mas eles certamente não se adaptariam aos milhares de gifs que poluíam visualmente o Orkut. Aqui, a cafonice para ser aceita tem que ser pelo menos de dois séculos atrás. Gifs com animais da Disney, música, corações, fogos de artifício...tudo isso os franceses repudiariam com aquele olhar blasé tão típico.

Oitavo: Procrastinação não é a ordem do dia. Aqui se trabalha menos que o Brasil, é verdade, mas os franceses parecem pouco adeptos ao sentimento macunaímico do “ai, que preguiça!”. Comunidades como “Não fui eu, foi meu eu lírico”, “Niilismo miguxo”, “Grávida de Luís Carlos Prestes”, “Lenin de três”, “Odeio contaminação por lítio” não teriam apelo nenhum. Eles nunca perderiam tempo com isso quando poderiam ir a um café, ler um livro, ou simplesmente ver o movimento passar.


 No geral, as nossas experiências com os franceses têm sido tranquilas. Eles são atenciosos quando você faz a pergunta correta. Eles te dão bom dia, boa noite, boa jornada... Eles até sorriem quando falamos com eles (em francês). Mas adicionar eles no Orkut? Nem pensar.


(A Juliane sugeriu um título alternativo para esse post: "Porque o Orkut funcionou tão bem entre os brasileiros..." - apostem suas fichas!) 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Eleições - Parte II

O Fernando escreveu ontem sobre eleições e levantou a bola para mim: fazer um texto sobre as repercussões da gincana eleitoral brasileira aqui na França. Isso talvez porque eu esteja lendo as notícias daqui, mas também porque ele é preguiçoso.

Semana passada (eu acho) vi na minha timeline algumas pessoas compartilhando um texto sobre a Marina Silva que saiu no jornal francês L'Humanité intitulado "Marina Silva, a nova direita brasileira". A chamada de capa não deixava por menos, dizendo ser a candidata criada por Washington para derrubar Dilma. Sendo um jornal declaradamente de esquerda, a reportagem do L'Humanité não surpreende: aponta para os parceiros de direita (Neca Setúbal e cia.) e para a política neoliberal proposta. Para quem lê em francês, o texto está disponível nesse blog aqui.

Um adendo importantíssimo: aqui na França, como nos EUA, e no resto da Europa, o pessoal "dá nome aos bois", ou seja, as posições políticas dos jornais são declaradas, não é a falácia da imparcialidade que vivemos no Brasil. Essa ideia de que um grupo de mídia não tem posicionamento político é uma bobagem, e aqui os jornais assumem suas posições e avaliam o cenário internacional conforme uma determinada linha editorial. No Brasil, a gente tem revistas como a Veja que estão cada vez mais próximas da extrema direita e, ainda assim, não assumem sua posição editorial de fato.

Mas voltando à vaca fria: como essa recepção da eleição brasileira aqui me interessava bastante, fui atrás de outras notícias sobre o assunto nos jornais de maior circulação. Lendo algumas dessas notícias (todas da última semana) chama a atenção algumas nomenclaturas e alguns apagamentos, o que já era esperado. Para começar, confesso que ler que Dilma é uma candidata da "esquerda" me soou estranho na primeira leitura (para o Le Parisien ela é); já Luciana Genro é considerada candidata da extrema-esquerda (o que sobra para o PSTU?!?!) pelo Libération. E aproveitando o ensejo: os candidatos menores praticamente não são mencionados. O debate de domingo passado, por exemplo, que teve como grande destaque negativo as criminosas afirmações de Levy Fidélix, só foi mencionado vagamente e sempre em torno de Dilma e Marina. Aécio mal aparece, quase entra na conta dos "pequenos": aparece nos dados de pesquisa, nada mais (no Le Parisien, o candidato tucano é referido como "social-democrata", o que mostra que os franceses ainda não estão entendendo nada).


Assim, sendo o centro do debate Dilma e Marina, os jornais intercalam entre informações sobre a recessão econômica que o país viveria, pauta da direita do Fígaro e da direita-católica do Le Croix.  O Les Echos, liberal, destacou ontem a última pesquisa favorável à reeleição e suas consequências imediatas: bolsa em queda, desvalorização do real (hoje o jornal deu destaque ao debate do último domingo, segundo eles "agressivo" e que girou em torno de discussões sobre a economia)

Já o Le Parisien (centro) ficou em pautas mais neutras: hoje destaca a batalha de Dilma para evitar um segundo turno, trazendo dados das últimas pesquisas e terminado com um breve comentário acerca das acusações trocadas por Dilma e Marina do debate de domingo (texto em francês aqui). O Le Monde, que se diz centro esquerda, e é o mais conhecido fora daqui, tem dado bastante evidência a Marina: em reportagem de 27 de setembro destaca que Marina Silva não é uma unanimidade entre os evangélicos (infelizmente não consigo ler a reportagem sem pagar, je suis desolée). No dia anterior, havia destacado um perfil da candidata.

O Libération, centro esquerda ou esquerda social-democrata,  no dia 22 já chamava a atenção para queda de Marina e no dia 24 de setembro destacou o apagamento das discussões sobre aborto e direitos GLBT entre os principais candidatos (acho que rolou até uma insinuação de que os candidatos se escondem dessas pautas na pauta econômica). Destaques da reportagem: ao comentar o debate organizado pela igreja católica um ponto de exclamação entre parênteses e a possibilidade de reflexão proposta no texto através das falas do sociólogo Rudá Ricci, que define o Brasil como um país paradoxal, liberal e reacionário. (Essa terra não é para principiantes, já disse o Tom.) Segundo o raciocínio proposto, os pobres são estigmatizados no Brasil, acusados de abortar, se drogar, etc., assim, quando há um recuo nas taxas de pobreza e esses pobres ascendem economicamente, assumiriam uma postura reacionária como forma de demarcar sua nova condição social.

Isso dá pano para manga: a maior dificuldade dos franceses em nos entenderem é que eles parecem não saber muito sobre mobilidade social. O Estado de bem-estar social aqui já é bem acabado, resiste às pressões de austeridade vindas da União Europeia (frau Merkel) e, apesar de existir miséria na França (e cada vez mais), não parece que eles conhecem essas histórias que a gente tanto gosta de gente que veio de baixo e subiu na vida. Portanto, a ideia de que quando subimos de vida renegamos o nosso passado ecoa muito.

Quem deu a morta foi o Fernando: não deve ser fácil para eles entenderem um país no qual a dialética  sai do papel e se concretiza...

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Je parle portugais.

Paris é uma cidade de muitas línguas, como toda metrópole que se preze: no metrô você vai escutar desde a sua língua materna até aquelas que você não consegue nem identificar. E, nesse espaço multilinguístico, o português também tem território bem marcado: não falo dos turistas, que são muitos, nem dos estudantes e imigrantes (estima-se em 73 mil o número de brasileiros na França), falo sobretudo de lugares nos quais você vai se sentir no Brasil (ou em Portugal), e de quebra ainda se comunicar naquele português matreiro.

Estando ligada ao grupo de Estudos Lusófonos na universidade, posso ter aulas tanto em português brasileiro quanto no português da terrinha. E através do grupo acabei tendo conhecimento de alguns lugares bem interessantes para quem consome cultura em português (e também gosta de um pastel de nata). Primeiro, a Biblioteca Gulbenkian, que possui um bom acervo de livros em língua portuguesa e alguma coisa de obras traduzidas (a biblioteca faz parte da Fundação Gulbenkian). Além de ter um espaço bem agradável de leitura, ela ainda oferece uma série de conferências sobre cultura lusófona (principalmente voltada para Portugal, mas alguma coisa de África e Brasil também). 


Além da biblioteca, conheci também a Librairie Portugaise et Brésilienne que tem um ótimo acervo de literatura brasileira, principalmente contemporânea. A parte de crítica literária não é tão boa, mas há alguma coisa. Outro espaço cultural é o Lusofolie's: café-espaço cultural (que reza a lenda tem um pastel de nata sensacional). O espaço vai abrigar, nesse sábado, um debate sobre as eleições no Brasil, mas antes será exibido o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, como uma homenagem aos 50 anos de sua realização. Em dezembro, por exemplo, a escritora Lídia Jorge participará de um bate-papo no café.  

Somados a esses espaços, há alguns institutos que pretendem divulgar (e fomentar) a cultura e a língua portuguesa brasileira por aqui: Autres Brésils e Alter Brasilis. O primeiro está promovendo em outubro a 10ª edição do "Brésil em Mouvements", com apresentação de filmes documentários e debates. O segundo oferece, entre outras coisas, cursos de português e cursos de francês para falantes de português.



Mas, para além da cultura mais formal há também aqueles espaços onde podemos simplesmente comprar uma Velho Barreiro por 23 euros e 50 cents. Essa lugar existe e se chama Coisas do Brasil: uma loja que, além de vender uma cachacinha, ainda vende erva-mate, para minha tranquilidade. Outro espaço brasileiro é o Barracão, bar que se localiza no 11eme (bairro mais alternativo e cheio de bares com bons preços): lá tem caipirinha, feijoada, moqueca e tudo mais. E claro, música brasileira: funk (Valesca diva!) e sertanejo-universitário (difícil), com direito aos atendentes se deixando levar pela cadência da música. A decoração do bar já é vista de longe: na fachada uma imensa bandeira do Brasil. Lá dentro, várias propagandas das antigas de cervejas brasileiras, daquelas ofensivas dos anos 90, sabe? 


Encontrar esses espaços não nos deixa mais à vontade de todo, inclusive há um estranhamento recorrente nesses encontros. A gente pode até se sentir familiarizada, mas há um misto de tranquilidade e desconforto: é como ver a Carminha falando em francês todas as manhãs.