sábado, 15 de novembro de 2014

O horror, o horror

Auschwitz-Birkenau hoje. A gente tá um tempo tentando digerir isso. Foram 7 horas ali dentro e uma sensação de derrota e de responsabilidade. Foi ver o pior lado da humanidade e como ele foi sistematizado por um grupo político. Foi acompanhar trajetórias pessoais dilaceradas pela tragédia e foi se perguntar também sobre quantas outras não foram lembradas (em outras partes do mundo, em outros momentos históricos).

O que fazer depois de Auschwitz?


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Chinelagem em Cracóvia

Viemos para a Cracóvia fazer uma viagem relâmpago até Auschwitz-Bikernau. Nesse meio tempo, contudo, aproveitamos pra fazer uma chinelagemzinha (leia-se: turismo baixo custo regado à alguma zueira) em terras polonesas.

Vale dizer que por aqui, os preços são ótimos para quem anda acostumado com Paris. Aqui, 1 euro vale 4,22 zloty (que é a moeda polonesa). Mas além da questão do valor, o lance é se ligar nos preços mesmo. Nem tudo aqui é barato...mas comer e beber é fácil para quem se aperta tanto em Paris. Para provar isso, uma passagem por três comidas de rua aqui:

1) Os "bolinhos russos": eles chamam de pierogi ruskii e nada mais é que um ravioli de massa recheado com batata e queijo. Ele é cozido, sem molho e sem nada e servido com umas pelezinhas tostadas de frango. Não curtimos muito, mas pelo preço (16 zloty) achamos honesto. Geralmente acompanha uma espécie de molho inglês que cai bem com os bolinhos.


2) A linguiça polonesa: não trema em cima dessa delícia. É um pratinho com a dita cuja, um bom bocado de mostarda e pão. Eles chamam de kielbasa e parece uma das nossas linguiças assadas nas brasas. Mas com menos gordura e uma mostarda de lamber os beiços - e só 8 zloty! A Juliane chegou a dizer que foi o mais perto de churrasco que comemos na Europa...e vindo dela, é um elogio.


3) O " xis" polonês: tá, não é bem xis, tá mais para bruscheta. Mas é bom! Imaginem um baguete cortado ao meio com queijo, cogumelo e o que mais quiser em cima. Eles chamam de zapiekanka. É uma delícia e em algumas zonas, você não paga mais que 9 zloty por um caprichado.


4) Vivendo e bebendo: E as bebidas? Além da comida barata, Cracóvia ainda nos brindou com cervejas a ótimos preços (de 4 a 5 zloty o pint de 500ml), mas o mais interessante são as bebidas tradicionais:


Vinho quente e vodka com sabor! Essa história do vinho quente eu já tinha ouvido na França e minhas suspeitas se confirmaram: é quentão sem cachaça e sem canela, só com cravo. Esquenta e o gosto é ok, mas ainda prefiro o nosso. Quanto à vodka, o pessoal aqui faz umas das boas, e você pode bebê-las na maioria dos bares, com a diferença que aqui ela lembra bem uma cachacinha aromatizada, não muito forte e a preços irrisórios (4 zloty o martelinho, mas encontramos por 3 também).

Nem deu 24 horas e já encontramos um jeitinho de fazer uma boa e velha chinelagem na Polônia.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O Collège de France

Em outro post o Fernando já tinha falado e dedicado um parágrafo ao Collège de France, narrando as nossas desventuras em estudar numa terra diferente. A experiência tem lá suas limitações, mas conforme a gente vai conhecendo essa instituição, vamos ficando cada vez mais fãs dela.


Já falamos da variedade de cursos que o Collège oferece e de quão sensacional é essa ideia de um ensino livre para todos que assim desejarem. Não é como se tivéssemos descoberto a roda, pois a instituição existe desde 1530. Pelo que vimos, ele foi fundado pelo rei Francisco I e se originou numa disputa entre os humanistas franceses e os teólogos da Sorbonne. O resultado então foi a criação de um colégio gerido pela coroa francesa para dar conta de matérias que a universidade não queria; ou não tinha interesse em ensinar. Desde então, o Collège se orgulha de ser mais aberto que a universidade, possibilitando um espaço de discussão aberta com o público em geral. Mas a sua ideia primordial retoma a lógica de que você pode estudar gratuitamente um curso de nível superior, completamente financiado pelo Estado e, com a vantagem de que não tem nenhum processo de admissão. Ou seja, sem vestibular, sem testes. 

E, no meio da era da internet, a grande novidade é que o Collège tem várias palestras online para quem quiser ver elas, nos chamados "podcasts". Geralmente elas são em francês, claro e tem disponíveis no Itunes (mas fiquem tranquilos porque é de graça). O link para acessar os podcasts pode ser encontrado aqui.

A gente tem que salientar também que a variedade de cursos também é demais. Eles têm 57 professores que são "eleitos" entre a comunidade acadêmica francesa e eles devem oferecer os cursos que lhes interessam. Assim, cada professor se torna responsável por uma "cadeira", que oferece diversos cursos relacionados. Há também os professores honorários, os professores convidados... nós, que somos das humanas, achamos que não tinha nenhum curso ali que não faríamos - embora nenhum deles fosse, de fato, importante para as nossas respectivas teses.


Nem tudo são flores, claro. O Collège é uma instituição cheia de prestígio, claro, mas você não ganha nenhum documento oficial por ter realizado qualquer curso que seja na instituição. Mas como eu vou provar para minha entidade mantenedora que eu fiz um curso no Collège? Bem, isso não é um problema comum para os franceses. De fato, pelo que sabemos, aqui a neurose com certificados é bem menor. Se você afirma que fez determinado curso e frequentou determinada aula, as instituições acreditam (Oi!? Para quem está acostumado a DOCUMENTAR currículos para provar sua veracidade, é uma grande e quase ingênua novidade...). São poucas as instituições que garantem documentos oficiais de conclusão de curso - no geral, o único documento mais aceito são os diplomas mesmo. E como o Collège não é exclusivo, você ter feito um curso lá não é um diferencial para os franceses.

Aliás, o fato de não ser exclusivo é uma maravilha, mas é preciso se destacar uma coisa: são poucos os estudantes e trabalhadores franceses que tem tempo livre para se dedicar aos cursos (que geralmente ocorrem durante os turnos da manhã e da tarde). Trabalhador é trabalhador aqui também e, mesmo com uma jornada de trabalho mais curta, não rola de ir em curso do Collège de France na maior. Há um respeito, claro, pelo fato dele ser tão "radicalmente público" (durante o maio de 1968 francês ele permaneceu intocado, diferente da Sorbonne). E já os estudantes, bom...o que temos visto aqui é que os estudantes geralmente são trabalhadores mesmo. Dependendo da família, pode até ser que ela ajude os filhos, mas no geral eles se veem obrigados a entrar no mercado de trabalho - e a lei é bem rígida ao definir a jornada de trabalho dos estudantes franceses. Então, se não é o seu horário de aula, bem...a tendência é que não seja nada fácil fazer esses cursos.

Por conta disso, a maioria do público nas conferências e palestras que fomos é composta de simpáticos (bem, nem tanto) velhinhos. Nem sempre são loucos de palestra, mas no geral são pessoas que devem estar aposentadas e usam de seu tempo livre para participar desses encontros. A ideia da instituição é simples: um lugar para o livre-pensar. Não sabemos se chega a tanto, mas a ideia de um debate livre e que não está amarrado pelas regras da academia parece bastante interessante.

Tivemos oportunidade de assistir ontem a uma primeira aula (são três) do curso "A questão Palestina, o fim dos processos de paz (agosto de 2000 - fevereiro de 2001)" com o professor Henry Laurens, que é o responsável pelas "cadeiras" de História Contemporânea do Mundo Árabe. Depois desse curso ele ministrará outro, e assim por diante. Além dos cursos têm uma série de conferencistas ao longo do ano. Mês que vem, para os historiadores de plantão, tem Perry Anderson, por exemplo.  Mas as outras áreas também tem vez, claro: amanhã tem algum seminário sobre equações, segunda sobre antibióticos, e assim segue o baile.

No site do Collège você pode ver toda agenda, escolher o que lhe apraz e voilá! Bons estudos!

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O POP francês

Eu confesso: eu flerto com o pop. Prontofalei! E assim que chegamos aqui, fomos expostos, quase diariamente a música "Prayer In C" da Lilly Wood.: tocava em todos os lugares, e todas às vezes que entravamos no Monoprix era ela que embalava as nossas compras na ilha de queijo (às vezes era Chico Buarque). Não sei se ela toca no Brasil, imagino que sim, mas de tanto ser exposta a dita canção, acabei me apegando. Afinal, é um popzinho super sincero!

Fomos descobrir o nome da música assistindo a um canal de clipes que eles têm aqui (estilo TVZ do Multishow, mas sem o sertanejo universitário - mas com músicas tão ruins quanto) e foi assim que conhecemos o que se consome de música pop em território francês. E, claro, tem coisas ruins, muito ruins e algumas até bem legais. Muitas delas acabei descobrindo o nome graças a Billboard francesa e esse post é para dividir com vocês algumas das músicas populares por aqui para ver o que vocês acham do pop francês (que é cantado em inglês, muitas vezes).



"Prayer In C" (Lilly Wood & The Pricks and Robin Schulz)


A dupla francesa está disputando os primeiros lugares nas paradas desde agosto, saindo do primeiro lugar em raríssimos casos. A canção também fez/faz sucesso em outros lugares da Europa, e foi produzida junto com o DJ alemão Robin Schulz. O clipe é uma coisa meio Halloween, meio Dia dos Mortos, no meio da cidade. Confessar-vos-ei que acho bem gracinha.

"La legende Black" (Black M. feat Dr Meriz)


Black M é um rapper franco-ganês que faz algum sucesso por aqui e canta... em francês! Outra famosa canção dele é "Sur ma route". Já o Dr. Meriz é um rapper malês, que fez várias parcerias por cá. O clipe faroeste tem suas qualidades - o Fernando acha ele engraçadinho.

"Habits" (Tove Lo)

Já a Tove Lo é sueca, e a canção e o clipe fazem o estilo "vida loca" (adoro o foco narrativo do clipe, super balada-real).


 "Color Gitano" (Kendjic Girac)


O Kendjic Girac é um cantor francês nascido em 1996. Repito, em 1996. Ganhou alguma coisa no The Voice local e lançou seu disco em setembro, emplacando já duas canções nas paradas de sucesso. Mas essa mistura meio latina meio cigana é difícil de engolir... (música uó!). E a pergunta central é: quantos ciganos gatos vocês já conheceram em suas vidas? Cigano Ígor não vale, hein.

"Cosmo" (Soprano)

Soprano é um rapper francês de origem camaronesa.Essa música escutamos bastante em Bruxelas e todas vez que escuto ela tenho vontade de sair saltitando.

"Profiter de ma life" (Maska, Black M. and Dr. Beriz)


Maska é francês e faz parceria aqui com os já citados Black M. e Dr. Beriz. Não está nas paradas da Billboard mas escutamos bastante por aqui nos mais variados lugares.


"Champs Elysées" (ZAZ)

A ZAZ é mais ou menos conhecida no Brasil e nesta semana lançou o seu novo álbum, "Paris", no qual ela canta, bem, a cidade luz. Esse foi o clipe divulgado até agora, e apesar de super gracinha, cantar a Champs Elysées é meio uó, já que é uma avenida bem uó. Quero ver ela cantar a Faubourg Saint-Denis, a Oberkampf... (mas eu gosto de ZAZ, só para constar).

O pop francês tem lá e cá sua zueirinha, claro. Mas vale salientar que tem uma grande quantidade de franco-africanos nele e são eles os que cantam em francês (as mais hypadinhas cantam em inglês), o que marca um lugar de fala bem interessante. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Um feriado para não esquecer

No dia 11 de novembro, os franceses comemoram o dia do armistício (ou jour du souvenir, ou jour de l'armistice). E essa comemoração é meio fúnebre na verdade, porque ela celebra o fim da Primeira Guerra Mundial - que em 2014 fechou cem anos de existência. Foi no dia 11 de novembro de 1918, que os países envolvidos assinaram um armistício que deu início as negociações de paz, pondo fim a Primeira Guerra.

O Fernando sempre achou interessante o tema da Primeira Guerra Mundial. Segundo ele, isso é porque ao contrário de muitas guerras da era moderna e contemporânea, essa foi uma guerra que não conseguiu construir uma narrativa que trouxesse junto a perspectiva de "mocinhos X bandidos". Apesar de todos os apelos patrióticos que a guerra exortava, o que aconteceu foi tal destruição que os soldados voltaram mudos, calados. Eles tinham pouco a dizer sobre o que ocorrera, sobre toda a destruição que testemunharam (e o Walter Benjamin e o Freud já falaram disso como ninguém).

Por conta disso, o College de France fez uma série de palestras esse ano para retomar os cem anos da guerra. O Fe foi assistir uma palestra da Michelle Perrot num desses dias, falando sobre como a Primeira Guerra Mundial teria modificado a percepção francesa sobre o amor. A palestra tinha sido muito interessante, ainda mais que a base das reflexões da autora eram justamente as cartas que alguns casais trocavam no período: eles, soldados no front; elas, tendo que entrar no mercado de trabalho. Insensíveis aos apelos românticos da Belle Époque, essa nova geração passou a separar sexo de amor. Sexo para os homens do front, só com prostitutas - que muitas vezes eram mulheres dos territórios conquistados que se entregavam aos soldados em troca de comida. Para as mulheres, sexo dependia dos homens que não iam para a guerra. Mas Perrot indica que o que acontece é exatamente um boom nas experiências homossexuais entre mulheres, principalmente segundo a imprensa da época, estarrecida com os casais de mulheres que não precisavam mais de um homem. Além disso, o uso de linguagem chula e palavrões passou a ser uma constante nas cartas, indicando a falta de uma linguagem acessível para comunicarem suas experiências: a do homem a destruição e a da mulher a repetição automática do trabalho industrial.



Mas há outras histórias interessantes do tipo de destruição-criação dos valores ocorridos na Primeira Guerra Mundial. As que eu acho mais interessantes são as histórias de deserção, dos soldados que não querem mais lutar pela pátria porque não veem mais sentido nisso. Tem alguns ótimos romances sobre o assunto, como o clássico Nada de Novo no Front (onde a visão sobre a guerra não tem nenhum romantismo) e o também clássico Adeus às Armas (onde aí sim tem uma história de deserção). No cinema, o filme mais antológico sobre o assunto certamente é o Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick. De fato, muitos desertores foram chamados de covardes pelos seus países...mas o esforço de recuperar essas histórias mostra que mais do que covardes, eram seres humanos de carne e osso que não aguentaram lidar com uma guerra onde a destruição tinha sido de tal ordem nunca antes vista.


Hoje os franceses comemoram tanto os soldados desconhecidos, mas honram também aqueles que foram fuzilados como desertores. De fato, a França foi o país que mais executou seus próprios soldados (os números variam entre 613 a 918 jovens que foram fuzilados pelo crime de deserção na Primeira Guerra Mundial). Cerca de 40 desses casos receberam perdão póstumo e tiveram seu nome "limpo" de qualquer acusação - entre eles, um jovem soldado que se recusou a usar as roupas de um companheiro morto na trincheira para se aquecer, sendo acusado (e condenado) por insubordinação. Ano passado, em 2013, foi feito um monumento a 613 desses soldados no museu dos Invalides (devo dizer que a gente não viu isso), mas acabou gerando uma polêmica com a Front National, o partido de extrema-direita que acreditava que honrar os "covardes" era uma forma de desmerecer a luta dos soldados que "morreram pela França" (não sei vocês, mas ficamos chocados).


Assim, hoje uma série de manifestações oficiais ocorrem na Place de l'Étoile (ali no Arco do Triunfo) e em outros lugares da Europa, como Londres. Aqui as comemorações se dão entre 2014-2018. A televisão está com cobertura direto da praça francesa e os jornais locais deram destaque a data também. O Libération destacou a inauguração, hoje, do "Anneau de la Mémoire", um monumento (50 placas) com cerca de 579 606 nomes de soldados mortos nos campos de batalhas, de diferentes lugares do mundo. Já o Le Monde chamou a atenção para os lugares de memória virtuais, como o Grand Memorial, a ser inaugurado, contendo mais de 8 milhões de fichas militares de soldados franceses que participaram da guerra. Além desse, eles já tem o Mémoire des hommes, com registros funerários e onde podemos ler descrições de batalhas, dia a dia dos soldados, etc.. O site está um pouco ruim hoje, mas é bastante perturbador encontrar, por exemplo, 4 pessoas com sobrenome Megier (da minha vó materna, filha de poloneses) e 11 Welter (do meu avô paterno, descendente de alemães). Você tem acesso aos atestados de óbito, inclusive.


No geral, não tem nada de zueiro comemorar o fim da Primeira Guerra Mundial. O clima, em geral, parece relembrar uma espécie de luto - que contrasta com as primeiras decorações de Natal nas ruas. Ele não é um feriado para honrar o militarismo (desde 1920 os veteranos exigiram que esse dia fosse celebrado sem desfiles militares), mas mais para lidar com um trauma nacional. Um trauma que a gente no Brasil conhece só de longe - mas que aqui eles parecem reforçar a presentificação da tragédia da guerra.

Curiosidade: hoje é dia dos franceses portarem o azul, e os ingleses o vermelho, em comemoração ao dia.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A Saga do Louvre - parte II

Hoje resolvemos dar uma volta pelo Louvre mais uma vez, na tentativa insólita de desbravar o maior museu da França. Se na primeira vez, fomos até o andar 0 (ver aqui), cheio de relíquias da Antiguidade Mediterrânea e Mesopotâmica, agora foi a vez de ir ao que eles chamam de andar -1. E aqui, algumas surpresas boas - mas também ruins.

Inicialmente essa parte se conecta com as anteriores, saindo do Império Romano e adentrando no Oriente Médio durante o Império Romano (algo do tipo "Império Bizantino") e uma seção especial dedicada ao Egito Copta, inclusive com...múmias! E múmias cristãs ainda por cima - sinistríssimo. Coroando tudo isso, também uma grande sala do Louvre (uma das mais recentes) que é a que fala da história do Islã, de 700 a 1800 dC. No geral, para quem adora História (eu! eu! eu!), é muito bacana ver esse olhar sobre culturas não-européias sem todo aquele teor colonialista que a gente já viu em outros museus (como o Quai Branly, por exemplo). Mas, levando em consideração que boa parte desses acervos foi "adquirido" no Líbano e na Síria, ex-colônias francesas no Oriente Médio, é bom ter cautela na afirmação.

De qualquer forma, vamos aos finalmentes:

1) Oriente Médio durante o Império Romano: não é a parte maaaaaais legal do museu, mas vale a visita. Tem aqueles mosaicos lindinhos adoráveis que os romanos ricos faziam em suas casas, geralmente com temáticas mitológicas. Depois que o cristianismo pegou naquelas bandas, as igrejas é que passaram a fazer os mosaicos, onde muitas vezes o que aparecia eram capítulos do Antigo Testamento ou até mesmo desenhos dos próprios templos. É legal para conhecer o que muitas vezes se chama de Antiguidade Tardia, que é esse momento pós-queda de Roma e que envolve o fortalecimento do cristianismo.


2) Egito Copta: muito interessante! A explicação mais simples sobre os coptas é que quando o Egito foi conquistado pelo Império Romano, a religião dos caras já era uma das mais sincretistas do mundo antigo. Eles misturavam a antiga mitologia egípcia com a mitologia grega e reinventaram tudo a partir da mitologia romana. Quando o cristianismo veio, a cidade de Alexandria se tornou um centro religioso e no século IV o Egito era uma região majoritariamente cristã. Só que era um cristianismo diferente e que se misturou, em muitos casos, com todas essas mitologias. Assim, os cristãos egípcios foram constantemente centros de disputas religiosas, heresias e tudo mais. Por que tô falando tudo isso? Calma que eu chego lá!

Quando os árabes muçulmanos invadiram a região, no século VIII, eles chamavam os egípcios de "copta" (algo que etimologicamente tem origem no nome "egípcio" em árabe). Só que os "copta" eram esses cristãos egípcios, então acabou confundindo etnia com religião. Que salada de frutas, não? De qualquer forma, para quem curte história da religião, é uma loucura! A gente vê nessa seção uma boa parte do cristianismo primitivo, com um sincretismo religioso incrível, misturando elementos da fé cristã, das mitologias laicas e até mesmo das crenças em santos e divindades que nós mesmo não conhecíamos (uma delas, a deusa Cybele, cujo culto originalmente se fundia ao de Gaia, dos gregos e entre os romanos passou a se diferenciar, sendo chamada de mater magna). Ah, e aqui tem múmias cristãs também, um arraso! (elas são múmias enroladas em sumários, mas é massa)



3) Islã: talvez tenha sido a parte mais legal desse andar do museu. Na parte do Egito Copta, coisas incríveis nos esperavam, claro. Mas no Islã, por ser a parte mais nova, o foco é bem mais na interatividade. O lugar tem pelo menos três mapas interativos que mostram a expansão do Islã e a formação de seus grandes reinos e impérios (bem, os reinos islâmicos subsaarianos a gente não chegou a ver...a ideia da África muçulmana era restrita somente aos bérberes, então isso é um ponto falho da exposição). Além disso, tem alguns videozinhos interativos que ensinam como eram feitas as cerâmicas muçulmanas e como eles produziam os seus livros já no século IX, o que tornava toda essa área substantivamente diferente do restante do Louvre - que no geral acaba sendo bastante tradicional enquanto museu.


Aqui você pode dar uma boa olhada em todo o processo de produção de cerâmica e nas técnicas químicas que eles usavam (já no século VIII), com especial ênfase no Irã - que seria o centro do império persa chamado de Ilcanato, criado lá nos séculos XIII e XIV. Muitos armamentos, claro, mas também tapeçarias incríveis, cerâmicas sensacionais, coisas deslumbrantes sem dúvida.


Vale um detalhe: para quem quer uma imersão histórica no mundo islâmico, aqui em Paris tem o Instituto do Mundo Árabe (a gente comentou brevemente nesse post), que é bem mais sensorial, com toda uma coisa de instrumentos musicais, sons de águas, cheiros, enfim... A área sobre Islã do Louvre é bem legal, mas se você curtir mesmo, tem que dar um pulinho no Instituto do Mundo Árabe.

Tá, mas o que é que tem de ruim no andar -1 do Louvre???

Pois então...justamente a parte medieval do Louvre acaba sendo meio uó. Porque na verdade, são as ruínas medievais do Louvre que...não são medievais! Essa bodega foi criada em 1528! E era um castelinho fofinho e tal, mas é chato...os muros do antigo Louvre nem eram tão legais e aí a gente ficou meio sem graça ao se dar por conta que não tinha nada demais lá. No frigir dos ovos, essa parte do Louvre deixa a desejar, mesmo para quem curte história. Não tem iluminaturas, ou grandes desenhos. E as esculturas medievais ficavam no andar 0 (que já tínhamos visto antes). Entonces, vale uma passada, mas tem coisas muito melhores para se ver no museu.

Saldo da segunda parte da saga? Positiva, porque é uma aula de História em boa parte do andar -1. Mas o andar 0 ainda tá ganhando na nossa contagem (vai, Código de Hamurábi!).

domingo, 9 de novembro de 2014

Roma bem que vale uma missa...

Foi o monarca Henrique IV que disse, certa vez, que Paris bem que valia uma missa. Henrique IV estava numa sinuca de bico quando disse isso: ou renunciava a fé protestante para tentar pacificar a França e evitar uma guerra com a Espanha, ou enfrentava a Espanha e corria o risco de perder a coroa. E como coroa era tudo para os reis franceses, ele soltou essa: “Paris bem que vale uma missa”. Se converteu ao catolicismo e se tornou rei da França – mas foi assassinado alguns anos depois por um católico radical, então acho que isso não deu lá muito certo pra gente.

Paris tem umas igrejas muito legais – e a Juliane já se adiantou e pediu esse post pra ela. Mas não é só Paris, não. Roma, apesar de toda sua herança antiga, tem nas Igrejas um atrativo à parte. E o melhor de tudo: elas são de graça! Antes de sair por aí visitando os palazzi renascentistas romanos, vale dar uma olhadinha nas igrejas: elas são um ótimo lugar para se deparar com a história da arte ocidental sem pagar nada por isso.

Uma das igrejas mais legais que visitamos foi a de Santa Maria de Trastevere. Ela foi erguida por volta do século III, mas a cúpula dela foi completada só lá pelo século XII. Ainda assim, a fachada da igreja é bem diferente do que estamos acostumados. Eles tentaram preservar a arquitetura medieval e o resultado impressiona pela simplicidade nas formas. Detalhe também para o mosaico que tem na fachada – também do século XII e que tem no centro a virgem Maria e o menino Jesus. Na nave onde fica o altar, mosaicos do século XIII. E no teto, bastante ouro e luxo – do jeito que os católicos gostavam lá pelo século XVII (dica importante: barroco católico geralmente é carregado em ouro e sangue...se tem ouro e sangue, tem boas chances de ser barroco). Pena que na hora que fomos visitar tava rolando uma missa e aí ficava chato tirar foto de todos os mosaicos internos.

Fachada da Santa Maria de Trastevere

Outra igreja surpreendente foi a de San Ignácio de Loyola. Para quem não sabe, o Ignácio de Loyola foi o fundador da ordem jesuítica em 1534, justamente aqui em Paris, na Igreja de Santa Maria, em Montmartre. Porém, foi em Roma que o Ignácio de Loyola organizou a ordem e formou, assim, a Companhia de Jesus – focada especialmente no trabalho missionário ao redor do mundo. Tá, mas e a igreja? Uma coisa de louco, especialmente o teto! Ele é um afresco do século XVII, pintado por um jesuíta e que retomava aquelas coisas lá do barroco que eu falei. Menos ouro, claro, mas um sanguezinho. E, principalmente, cores muito vivas! Mas o mais bizarro é a temática: em cada ponto, um lugar onde eram realizadas as missões jesuíticas – África, Europa, Ásia e América. É assombroso e, é claro, dá um ruim – ainda mais se a gente conhece um pouco da história da América colonial e o papel dos jesuítas nela. Ainda assim, é bom ver para fugir um pouco da estética mais sóbria das igrejas romanas e ter a sensação de uma arte mega-colorida e, é claro, cheia de detalhes em ouro.

Teto da Igreja de Santo Ignácio

Vale salientar também um passeio que fizemos no templo de Santa Maria Degli Angeli, uma Igreja que mantém ainda os pilares romanos do século IV e é considerada uma das mais antigas ainda existentes em Roma. A fachada dela fica ao lado das termas do antigo imperador Diocleciano, então é bastante sóbria. Mas lá dentro, suntuosidade define. Ela é gigantesca e tem também um meridiano que corta a basílica, utilizado como uma espécie de calendário lunar e relógio. Lá também se encontra um pêndulo, que reproduziria aí a experiência de Galileu Gallilei – o famoso físico condenado a prisão pelo Tribunal do Santo Ofício. Tanto o pêndulo como o meridiano foram colocados na Igreja no século XVIII – mais de um século depois da morte de Galileu.

Aliás, falando em gente que a igreja não curtia muito, vale também um passeio pelo “campo de fiori”, uma praça na área central de Roma que tem uma estátua gigante de Giordano Bruno. Foi lá, inclusive, que o teólogo italiano foi queimado vivo nas fogueiras da Santa Inquisição. A estátua relembra Bruno e tem pequenas placas de bronze relatando a acusação, os processos e, por fim, o assassinato de Giordano Bruno. A estátua, contudo, é obra do artista plástico Ettore Ferrari e foi terminada somente em 1889. Tipo, 289 anos após a morte do teólogo italiano. Aqui é aquela coisa: você não vai ver igrejas, mas vai ver uma de suas obras em solo romano.

Giordano Bruno

Tem uma pá de outras igrejas que merecem visita, claro, mas uma visita à Roma praticamente exige uma ida ao Vaticano. Mas cuidado: o museu é pago e é a partir dele que você vê a Capela Sistina. Lá praticamente não tem nada de graça, exceto a vista da praça de São Pedro. A Capela Sistina, obviamente, é o ponto alto da visita, mas tem obras incríveis renascentistas e só a parte dedicada às obras de Rafael Sanzio já é deslumbrante. Vocês não imaginam a minha alegria ao ver ali o mural da “Escola de Atenas”, uma das minhas pinturas favoritas! Sensacional!


Não pode tirar fotos da Capela Sistina, mas...

Uma foto meio torta da Escola de Atenas

De resto, Roma vale essa “via sacra” por igrejas, sim. Para quem curte arte e história, é um passeio pela consolidação do cristianismo, pelos seus apagamentos, pelos seus silêncios e, é claro, por toda a arte que a religião inspirou. E se isso não for suficiente, é de graça. Mas também, com tanto ouro nos tetos, capelas e altares, seria até sacanagem cobrar a entrada...