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sábado, 25 de outubro de 2014

Grávida de Luís Carlos Prestes

Desde que chegamos aqui tem me chamado a atenção a quantidade de crianças e de mães jovens pela rua. E não falo de mães/pais com um bebê, ou uma criança já grande, falo de casais com duas, três, quatro crianças, no melhor estilo "escadinha". Algo comum por aqui, inclusive, são os carrinhos duplos (que só lembro de ter visto no Brasil no caso de gêmeos, ou seja, é raro) que levam duas crianças de idades diferentes, mas com pouca diferença.

Primeiro achei que eu podia estar exagerando, que seria uma falsa impressão a quantidade ""assustadora"" de crianças, mas conversando com o Fernando ele concordou. Nossa primeira hipótese foi a educação e a saúde pública de qualidade, assim é muito mais fácil ter um filho. Depois problematizamos que isso poderia ser uma marca do nosso bairro, o 15e, de classe média/média alta, com poucos imigrantes, com alto poder aquisitivo, essas coisas.


Ontem tivemos a oportunidade de conversar com uma imigrante portuguesa que vive aqui há bastante tempo e nos foi bastante esclarecedor. A maioria das reflexões que faço aqui partem então dessa conversa, e de conversas com brasileiros que também moram aqui há muito tempo. Assim, nosso parâmetro é Paris, já que há variações por região (e renda) na ajuda dada pelo governo. Associo o texto de hoje também ao texto de ontem, sobre o "bolsa família" daqui, que não é um, são muitos.

Saúde

O sistema de saúde público, que todos são obrigados a ter, é conhecido por ser de altíssima qualidade e funcionar muito bem. Se você precisar fazer uma consulta você paga ao seu médico algo em torno de 28 euros, dinheiro que será ressarcido pelo governo, diretamente na sua conta, em cerca de 5 dias.  Pelos relatos, o sistema já foi melhor, cobrindo 100% de todos os custos com saúde, hoje ele cobriria uns 80%, o que para nossa experiência já seria um sonho.

Vacina para gripe? Paga pelo Estado. 

Cirurgia de redução de estômago? Paga pelo Estado. Mas o mais interessante é que todas as cirurgias reparadoras (consideradas estéticas no Brasil), são pagas pelo Estado também, já que são entendidas como parte do "pacote" da cirurgia: dessa forma, a cirurgia plástica vai para a conta do Estado. Assim como são entendidas como parte do pacote "acessórios" pós cirúrgicos: em uma cirurgia de retirada de nódulos mamários, por exemplo, você precisa usar um sutiã especial que aqui custa em torno de 80 euros. Pago pelo Estado. 

E sistema de saúde privado, tem? Tem, ele serve para dar conta daquilo que não é abarcado pelo público. Um plano de saúde privado para uma família (pais com mais de 40 anos e criança), sai por uns 170 euros mensais. Entre as vantagens apontadas está o fato de você ficar em um quarto individual (o público é com quarto coletivo). Fiz uma simulação de preços no site da Unimed de São Paulo e um plano para mim e para o Fernando sai em torno de 412,12. Em euros: 131,46. Esse seria o plano mais barato, com abrangência regional, obstetrícia e internação na enfermaria. Agora faça o cálculo mais lógico: o salário mínimo daqui, arredondando, 1400 euros. O salário mínimo daí 230 euros. Que tal te parece a proporção?

Ah! E parece que médico aqui ganha como qualquer trabalhador, e é "gente como a gente" (citação).

Assistência Social

Aqui dona de casa tem direito à assistência social. Trabalhador também. Todo mundo tem. Trabalha-se pouco (a média francesa é de 35 horas semanais). O sistema de seguridade social francês é bem melhor que o INSS nosso-de-cada-dia, ao garantir que todos aqueles com problemas de saúde ganham seu pagamento integral - independente do empregador. Quando falamos que no Brasil é muito difícil de conseguir licença médica, ouvimos que a França garante isso por lei a todo mundo. E de fato, o empregador que não garantir licença médica a um funcionário pode ser duramente processado.

Mesmo quem está aposentado ou por invalidez mantém seus recursos intactos, garantindo entre 80 a 100% do seu salário integral mesmo quando não está trabalhando. Nos anos 90 e 2000 houve muita pressão para que se aliviasse a previdência social francesa, mas o fato é que ela é fortíssima e reforça essa ideia de que ela não é só para "pobre", mas sim para todos. Assim, todo francês é responsável pela manutenção da assistência social.

Educação

É pública, em sua grande maioria, do ensino básico ao ensino superior. Há escolas do básico privadas, geralmente confessionais, mas o que corre "à boca pequena" é que as públicas são melhores (mais ou menos como no Brasil sobre as universidades públicas/privadas).  Já universidades privadas são ainda mais raras e também estão ligadas ao catolicismo.

Fora isso, no que se refere ao ensino básico, os horários da escola são bastante interessantes: das 8:30 às 16h (ou 16:30, não tenho certeza). Dessa forma, você não precisa de uma babá, por exemplo, já que a criança fica o dia na escola. Se você precisar que ela fique um pouco mais, é possível também. Tudo público e laico. Assim, as crianças comem no refeitório da escola, e devem comer tudinho, inclusive a salada, pois há um fiscal para controlar isso. Que tal? Somado a isso, e partindo de um relato, o uso da cantina é pago, mas de acordo com a renda dos pais. De novo para quem não entendeu: o pagamento é proporcional à renda dos pais.

Filhos

Já que estamos falando dos pequenos: aqui a escola começa a partir dos 3 anos, se antes disso você quiser pagar uma babá (1500 euros), o Estado paga metade. O que parece ser muito comum aqui é duas famílias contratarem um babá (geralmente imigrantes) e dividirem ainda mais os gastos (e aumentarem o trabalho dela...)

Uma outra possibilidade é você não querer babás e resolver parar de trabalhar para poder cuidar dos seus filhos até os 3 anos: o Estado pagará para você uma "bolsa" até lá. Fora o fato que você recebe uma ajuda de custo para os filhos que você tem e algo em torno de 900 euros (pode ser mais ou menos dependendo da região e da renda) para poder comprar o enxoval do seu bebê e outros produtos considerados essenciais para a criança - desde que tenham preços acessíveis. O relato que tivemos foi de que o governo francês sempre trabalhou com a ideia de famílias com 3 filhos, e para que isso acontecesse facilitou e incentivou bastante a vida de todos que quisessem ter seus "bacuris e bacurias".

O que isso significa para mim?

Tenho 32 anos e não tenho filhos. As mães que eu vejo na rua, muitas com menos idade do que eu, têm 2, 3, 4 filhos (num verdadeiro exercício de malabarismo).  Quanto eu gastaria, no Brasil, para ter dois filhos? Plano de saúde e educação privada e uma jornada de trabalho extenuante para poder arcar com as despesas. Ou eu poderia usar o sistema público - que sabemos que tem problemas bem sérios. Seria temerário da minha parte depender unicamente do SUS, embora haja ótimos relatos do IPE no RS. Quanto à educação, há boas chances de conseguir escolarizar um filho por meio da escola pública (temos ótimas escolas federais, por exemplo) e se considerarmos o Ensino Superior, as federais botam no chinelo as universidades privadas. Mas a expansão da educação e da saúde privada no Brasil se deu (e ainda se dá) demolindo a qualidade daquilo que é público. E com isso a maioria das pessoas que têm renda suficiente migra para os serviços privados, se sentindo desresponsabilizada pelos serviços públicos, que por sua vez, vão ficando cada vez mais estigmatizados e recebem cada vez menos verbas. É uma bola de neve perigosa - que foi contida nos últimos 12 anos, mas que não deixou de existir.

Em síntese: viver num Estado de bem-estar social bem assentado é um sonho, já que ele garante direitos básicos a todos os seus cidadãos (eu disse TODOS, inclusive aqueles que ainda não têm essa cidadania garantida, como os imigrantes ilegais). O que isso significa na prática? Você tem acesso à saúde, educação, auxílios diversos, que garante que todos tenham condições de vida, pelo menos, dignas. e combate, assim, a desigualdade social. Claro que você só consegue isso com impostos, e com impostos que recaem cada vez mais nas classes altas, o que é muito justo.

Hoje a França vive talvez o seu pior momento, com uma altíssima divida pública e com desemprego bem maior do que o Brasil. Uma das alternativas proposta pela direita é a privatização de muitos desses serviços, o que é rejeitado pela maioria da população (pois essa grande maioria se beneficia do sistema público). A extrema-direita, mais malandra, se recusa a fazer isso, mas vai mais longe. Com um discurso xenófobo ("a culpa é dos imigrantes"), eles se propõem não a desmantelar o Estado de bem-estar social, mas sim tirar os imigrantes dele. Isso encontra eco numa parcela da população (principalmente no Norte, pelo que vimos em alguns adesivos colados no nosso bairro: "na Bretanha, empregue Bretões". Me-do). As esquerdas, por sua vez, falam que o governo pode (e deve) abrir mão do discurso de austeridade e ampliar ainda mais a tributação sobre as grandes fortunas francesas. Isso faz com que haja evasão de ricos, que acabam indo morar na Bélgica, Holanda, Espanha, Inglaterra. Os investimentos também minguam e, consequentemente, acaba aumentando ainda mais o desemprego. Uma solução proposta pela extrema-esquerda seria começar a encampar empresas para garantir que os empregos não diminuíssem.

E ainda dá para ter filhos aqui, mesmo diante desse cenário? Bom, a rigor, continua parecendo mais fácil constituir família aqui do que no Brasil. Enquanto verificamos o declínio econômico francês e suas consequências sociais, na nossa terra natal a gente vê exatamente o contrário. Mas ainda assim o abismo é grande.

O meu primeiro impulso depois de saber do funcionamento das coisas por aqui foi: "vou ter filhos e morar aqui para sempre!". Mas daí passei uma noite perambulando entre bares cheios de franceses bem franceses e me dei conta de uma coisa: vai que meu filho sai blasé também?!

Resumindo: desisti da ideia ;)



Bolsa Família na França

Te juro, eleitor brasileiro. Aqui tem bolsa família também. Eles chamam de outra coisa: um tal de RSA, Revenu de Solidarité Active, ou Renda Solidária Ativa. Para mim e para Juliane, daria mais ou menos uns 700 euros mensais. Chegamos a cogitar a ideia de solicitar, mas ficamos meio constrangidos..."pô, é chato, a gente economizou uma grana, tá super batalhando...será que vale se aproveitar dos caras?" Bom, esse é o nosso pensamento brazuca. Como sou cidadão europeu, daria para pedir bem tranquilamente. Mas não o fizemos.

A gente não fez porque a gente é brasileiro, de uma forma meio maluca. O primeiro programa de transferência de renda em âmbito nacional foi o bolsa família. Até hoje a gente vê gente chiando no Brasil porque o programa "sustenta vagabundo" (ou coisa do tipo). Caro amigo brasileiro, cara amiga brasileira, vamos deixar vocês bem tranquilos: saibam que na França, o RSA (o bolsa família deles) equivale basicamente a 2.100 reais. No Brasil, o bolsa família pode chegar no máximo a 200 reais (adicionando 70 reais por filho). Na França esse valor, como dissemos, chega fácil a 700 euros para um casal sem filhos (eu e a Ju). Isso dá mais ou menos metade de um salário mínimo francês. Se vocês acrescentarem aí o fato de que não se paga nem por saúde e nem por educação nessa terra, os gastos dos franceses e francesas são apenas os de aluguel, mobilidade urbana (amém, metrô) e alimentação.

E no Brasil? No Brasil, uma bolsa família mal dá para o sustento de uma família de fato. Tira eles da miséria, mas é preciso ainda muito mais. É preciso, claro, que a saúde e educação sejam gratuitas e boas o suficiente para garantir qualidade de vida ao cidadão. Mas para isso, lamento dizer, é preciso nivelar os salários de todo mundo. Aqui na França, um médico em início de carreira ganha cerca de 6 a 7 mil euros. Um salário mínimo francês é de cerca de 1200 euros. Amigo, o salário do médico francês em início de carreira é cerca de 6 vezes mais o salário mínimo. No Brasil, o Governo Federal oferece a médicos um salário de início de carreira de cerca de 10.000 reais se aceitarem participar do Programa Mais Médicos (a única contribuição compulsória dos médicos no sistema público de saúde). Isso equivale basicamente a cerca de 14 vezes o salário mínimo! Em início de carreira, voltamos a lembrar. E nem falemos de magistrados e políticos.

Mas o problema não passa só por eles. Amigo, experimenta sonegar imposto aqui na França. Sabe o que acontece? Se você sonegou menos do que 5% dos seus gastos, o juiz te chama e fica definido que você paga o não declarado. Mas caso a sonegação tenha sido maior...amigo, prepare-se: você pode ter que pagar até 80% a mais do valor do imposto. Sonegação aqui é algo sério e todo mundo tem que pagar por isso.

A gente nem consegue dizer que a França é o melhor dos mundos. Outros países tem melhores sistemas tributários e conseguem sociedades ainda mais igualitárias que os gauleses. Mas comparado com o Brasil, onde escapar do "leão" é sinônimo de malandragem, encarnação viva da lei de Gerson, aqui fica parecendo a Cuba socialista. Enquanto no Brasil alguns poucos podem gastar muito sem ter que arcar com qualquer responsabilidade por uma grande massa de pobres e miseráveis, aqui na França a ideia de "comunidade" pesa forte e os impostos são adequados a partir da realidade de manter a desigualdade sob controle.

No final das contas, me arrependo de não ter recorrido à assistência social francesa. Não é nenhum demérito. Faz sentido dentro de uma sociedade que se preocupa, minimamente, em não entrar em colapso. Mas em terra brasilis...sei não, tenho receio do que o próximo dia 26 de outubro possa nos apontar. 


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tava aqui de boas...

Tava aqui de boas em Paris, em uma segunda-feira tranquila de trabalho, sem grandes movimentações e novidades. Saímos somente para resolver algumas coisas pela manhã, mas foi um dia comum, ele poderia inclusive ter acontecido em Porto Alegre (não fosse o vento gelado e o sol que não esquenta!). Assim, nasceu um problema: sobre o que escrever no blog hoje? 

Muitas ideias vieram (segundo o Fernando): falar do sol, da miséria parisiense (tem sim, sinhô!), comparar os franceses com os belgas (achei ofensivo), mas nenhuma me cativou. Tive que chafurdar no Facebook (adoro), de onde veio a ideia deste post.

NENHUM voto em Aécio Neves.

Assim, sem cuspe.

É que todo mundo no Brasil está se posicionando, e a gente aqui, comendo baguete, bebendo vinho e comendo queijo.  A gente precisava se posicionar e nada mais fácil do que dizer NÃO ao Aécio Never, ops, Neves. Mas porque dizer não para um cara tão bonito e educado e rico?  Bom, tanto eu quanto o Fernando vivemos os anos FHC. Do ponto de vista da educação, eles forem bem ruins: nenhuma universidade pública criada, pouquíssimos concursos para professor, instituições sucateadas, greves de professores. Somos, afinal, duas coisas: produtos da era Lula-Dilma e professores. Nos tornamos professores nessa mesma era e, portanto, não conseguimos (queremos) um retrocesso nessa área.

O Fernando é um guri de apartamento de Porto Alegre, mas eu, que vim de São Borja e amarrei meu cavalo no obelisco, consigo perceber as maravilhas que a Unipampa e o Instituto Federal fizeram pela cidade e pela educação (e ainda têm para fazer). Esse tipo de investimento é contra-producente para uma lógica economicista. Educação gera gastos e o seu retorno nem sempre se dá dentro da esfera produtiva.  A gente briga muito com o governo Dilma pela sua visão produtivista sobre ciência e educação, mas ainda há uma visão sobre ciência e educação que não larga tudo nas costas da iniciativa privada. A prova disso sou euzinha: graduação em universidade pública, mestrado em universidade pública, doutorado em universidade pública.


Voltamos para Porto Alegre em janeiro. Entramos novamente no mercado de trabalho e aí a dúvida: o que é melhor? Um governo que tem conseguido manter o desemprego em 5% ou um governo que entregou o país com uma taxa de 12%? Um governo que mantém o poder de compra do salário mínimo, ou um que pretende reduzi-lo? Um governo que abre concurso público, ou um que é conhecido pelo seu descaso com a educação? Aliás, vocês viram o índice de rejeição do Aécio Neves entre os professores mineiros? Deem uma googleada. 

A gente não vai votar, mas abrimos votos no Facebook no 1º turno: Luciana Genro, a diva dos cabelos cacheados. Também não votaremos agora, mas achamos que o blog poderia servir como espaço para abrirmos o nosso VETO. A gente já se apavorou com as eleições para deputados federais e estaduais, e nem me fale do senado "essas-mais-de-mesa"! Vai que a gente volta na luta, na cara e na coragem, e precisa enfrentar mais 4 anos de PSDB ainda? 

É, caro leitor e cara leitora, a gente estava aqui de boas, pensando que não adianta votar no PSDB e depois reclamar da educação, viu?!



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ressaca eleitoral

Ontem eu e a Juliane ficamos acompanhando as eleições no Brasil. Dormimos tarde - aqui já eram mais de 2h. E acordamos como se estivéssemos com uma ressaca monstra. Praticamente todos os nossos candidatos perderam (o que a gente esperava) e verdadeiras abominações foram eleitas. Faz parte da festa da democracia, mas a gente esqueceu de tomar um Engov antes.


Acordamos hoje e retomamos a leitura de notícias. Nem eu e nem a Ju fomos na biblioteca de manhã. Preferimos passar o dia em casa, retomando os acontecimentos da noite anterior.

E na França? Bom, na França eles seguem não entendendo nada. O Le Monde, que no final de semana passado chegou a colocar Dilma e Marina na capa (e declarou apoio a Marina Silva inclusive) lançou um vídeo hoje para explicar quem é Aécio Neves. O vídeo é didático e chama o Áecio de "tecnocrata playboy" enquanto mostra que as principais plataformas dele são a denúncia do escândalo da Petrobrás e o fim do intervencionismo econômico. Ainda na parte de notícias, o jornal pergunta "Que s'est il passé?" (ou um "o que aconteceu") ao se referir a Marina Silva, dizendo que ela compunha uma problemática aliança que ia da extrema direita (oi?) à extrema esquerda (oi????).

No Liberation, a matéria é bem mais completa e analisa todo o cenário eleitoral com a opinião de vários especialistas brasileiros. A Marina Silva é lembrada como uma atípica candidata ecologista...mas tirando isso, a matéria funciona como um bom balanço acerca da disputa eleitoral no primeiro turno entre os principais candidatos, sem dar muita bola para os demais. Não recomendo, contudo, olhar os comentários. Parece que na França - assim como no Brasil - o pior das pessoas aflora quando elas vão comentar uma notícia na internet.

O Le Figaro, por sua vez, dá nome aos bois e chama Áecio Neves de "direita tradicional". Além disso, o jornal dá uma zoada na Marina e faz até piadinha, dizendo que a candidata devia ter escolhido o golfinho como mascote de sua campanha (porque ele é bonitinho, dá uma pirueta no ar, mas depois mergulha para as profundezas de novo...). Mas o jornal acredita também que o segundo turno brasileiro será contemplado por uma disputa ideológica...embora eu não tenha certeza se eles sabem o que é ideológico no Brasil.

No Rue 89, nada sobre o resultado eleitoral. E no Direct Matin, a matéria lembra que os partidos tradicionais foram escolhidos (PT e PSDB), mas que ambos estão com o nome manchado por casos de corrupção. O La Croix, que é da direita católica francesa, é o único que fez referência as eleições legislativas, definindo Celso Russomano como um jornalista "defensor dos consumidores" (oi?????), destacando também a eleição de Tiririca e Romário. No L'Humanité, jornal ligado à esquerda, por outro lado, uma interessante definição sobre Marina Silva: socialmente de esquerda, economicamente de direita. Interessante em contrastar o La Croix e o L'Humanité em suas abordagens: enquanto o primeiro anuncia que Dilma terá de enfrentar um segundo turno, o outro afirma que Dilma vai para o segundo turno com grande vantagem.

No geral, os franceses parecem se preocupar apenas com o que rola no Executivo brasileiro. Menos mal...se a corrida presidencial já dá nó na cabecinha deles, imagina depois quando a gente tiver que explicar sobre Bolsonaro, Feliciano, Danrlei, Jardel, Heinze, Lasier e afins...


domingo, 5 de outubro de 2014

Dia de eleições - parte III

Estamos em obras.

Na verdade, estamos ansiosos pelas eleições e vamos tentar madrugar para ver o que se passa nessa terra.

Amanhã a gente volta com tudo. :)


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Eleições - Parte II

O Fernando escreveu ontem sobre eleições e levantou a bola para mim: fazer um texto sobre as repercussões da gincana eleitoral brasileira aqui na França. Isso talvez porque eu esteja lendo as notícias daqui, mas também porque ele é preguiçoso.

Semana passada (eu acho) vi na minha timeline algumas pessoas compartilhando um texto sobre a Marina Silva que saiu no jornal francês L'Humanité intitulado "Marina Silva, a nova direita brasileira". A chamada de capa não deixava por menos, dizendo ser a candidata criada por Washington para derrubar Dilma. Sendo um jornal declaradamente de esquerda, a reportagem do L'Humanité não surpreende: aponta para os parceiros de direita (Neca Setúbal e cia.) e para a política neoliberal proposta. Para quem lê em francês, o texto está disponível nesse blog aqui.

Um adendo importantíssimo: aqui na França, como nos EUA, e no resto da Europa, o pessoal "dá nome aos bois", ou seja, as posições políticas dos jornais são declaradas, não é a falácia da imparcialidade que vivemos no Brasil. Essa ideia de que um grupo de mídia não tem posicionamento político é uma bobagem, e aqui os jornais assumem suas posições e avaliam o cenário internacional conforme uma determinada linha editorial. No Brasil, a gente tem revistas como a Veja que estão cada vez mais próximas da extrema direita e, ainda assim, não assumem sua posição editorial de fato.

Mas voltando à vaca fria: como essa recepção da eleição brasileira aqui me interessava bastante, fui atrás de outras notícias sobre o assunto nos jornais de maior circulação. Lendo algumas dessas notícias (todas da última semana) chama a atenção algumas nomenclaturas e alguns apagamentos, o que já era esperado. Para começar, confesso que ler que Dilma é uma candidata da "esquerda" me soou estranho na primeira leitura (para o Le Parisien ela é); já Luciana Genro é considerada candidata da extrema-esquerda (o que sobra para o PSTU?!?!) pelo Libération. E aproveitando o ensejo: os candidatos menores praticamente não são mencionados. O debate de domingo passado, por exemplo, que teve como grande destaque negativo as criminosas afirmações de Levy Fidélix, só foi mencionado vagamente e sempre em torno de Dilma e Marina. Aécio mal aparece, quase entra na conta dos "pequenos": aparece nos dados de pesquisa, nada mais (no Le Parisien, o candidato tucano é referido como "social-democrata", o que mostra que os franceses ainda não estão entendendo nada).


Assim, sendo o centro do debate Dilma e Marina, os jornais intercalam entre informações sobre a recessão econômica que o país viveria, pauta da direita do Fígaro e da direita-católica do Le Croix.  O Les Echos, liberal, destacou ontem a última pesquisa favorável à reeleição e suas consequências imediatas: bolsa em queda, desvalorização do real (hoje o jornal deu destaque ao debate do último domingo, segundo eles "agressivo" e que girou em torno de discussões sobre a economia)

Já o Le Parisien (centro) ficou em pautas mais neutras: hoje destaca a batalha de Dilma para evitar um segundo turno, trazendo dados das últimas pesquisas e terminado com um breve comentário acerca das acusações trocadas por Dilma e Marina do debate de domingo (texto em francês aqui). O Le Monde, que se diz centro esquerda, e é o mais conhecido fora daqui, tem dado bastante evidência a Marina: em reportagem de 27 de setembro destaca que Marina Silva não é uma unanimidade entre os evangélicos (infelizmente não consigo ler a reportagem sem pagar, je suis desolée). No dia anterior, havia destacado um perfil da candidata.

O Libération, centro esquerda ou esquerda social-democrata,  no dia 22 já chamava a atenção para queda de Marina e no dia 24 de setembro destacou o apagamento das discussões sobre aborto e direitos GLBT entre os principais candidatos (acho que rolou até uma insinuação de que os candidatos se escondem dessas pautas na pauta econômica). Destaques da reportagem: ao comentar o debate organizado pela igreja católica um ponto de exclamação entre parênteses e a possibilidade de reflexão proposta no texto através das falas do sociólogo Rudá Ricci, que define o Brasil como um país paradoxal, liberal e reacionário. (Essa terra não é para principiantes, já disse o Tom.) Segundo o raciocínio proposto, os pobres são estigmatizados no Brasil, acusados de abortar, se drogar, etc., assim, quando há um recuo nas taxas de pobreza e esses pobres ascendem economicamente, assumiriam uma postura reacionária como forma de demarcar sua nova condição social.

Isso dá pano para manga: a maior dificuldade dos franceses em nos entenderem é que eles parecem não saber muito sobre mobilidade social. O Estado de bem-estar social aqui já é bem acabado, resiste às pressões de austeridade vindas da União Europeia (frau Merkel) e, apesar de existir miséria na França (e cada vez mais), não parece que eles conhecem essas histórias que a gente tanto gosta de gente que veio de baixo e subiu na vida. Portanto, a ideia de que quando subimos de vida renegamos o nosso passado ecoa muito.

Quem deu a morta foi o Fernando: não deve ser fácil para eles entenderem um país no qual a dialética  sai do papel e se concretiza...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Eleições - parte I

Gente, eu ia fazer um texto sobre Levy Fidelix e sua performance no debate de ontem. Mas não vou mais, não. Como diz o ditado popular gauchesco, não vale a pena gastar chumbo em chimango. E de mais a mais, dar ibope para esse sujeito é ignorar que o lugar dele é a lata de lixo da história mesmo. A quem caiu no conto do bigodudo do aerotrem, o Porta dos Fundos me representa melhor (clique aqui).

Mas não tem como não falar de eleições, no final das contas. Estamos cada vez mais ansiosos para o processo eleitoral, sendo que dessa vez não vamos participar, ficando apenas com o papel de espectadores nessa peleja. E eleições, assim como futebol, tem um quê de misticismo quando a gente tá ali, ao vivo, acompanhando as movimentações. Quando a gente vai no estádio, a gente se sente um fator determinante no andamento do resultado. Acompanhando as eleições in loco, dá a mesma sensação. Mas o bizarro é que nem eu e nem a Juliane sentimos isso; só agora, que a gente tá a léguas de distância, é que a gente sente o peso dessa eleição. Mas muito mais na condição de espectador mesmo.

Aqui em Paris eu cheguei a conclusão que seria possível pensar em dois tipos de votos: os que eu realmente faria se estivesse no Brasil de um lado e os votos-de-espectador de outro. É mais ou menos com aquela coisa de torcedor, que tem o time do coração de um lado e os times que ele simpatiza de outro. Teria ainda uma terceira modalidade que é o anti-voto, onde qualquer voto contra um determinado candidato seria quase uma vitória - que no final das contas, é a mesma coisa que ficar "secando" um rival. Eu, por exemplo, seco descaradamente Lasier "essas-mais-de-mesa" Martins (PDT) nas eleições para o Senado rio-grandense. O mesmo não faço com figuras políticas asquerosas como o Pastor Everaldo (PSC), porque ninguém perde tempo secando time pequeno.


Porém, acompanhar essas eleições tem sido difícil, já que estamos perdendo muitos dos debates, exceto os trechos que os amigos selecionam para colocar no Facebook. Estamos ficando cada vez mais por fora da corrida eleitoral, mesmo com os amigos nos dando informes virtuais sobre o que anda rolando. Ao mesmo tempo, estou bastante desconectado do Grêmio - parece que vencemos ontem (2 a 0 em cima do Botafogo) e estamos nos aproximando do G4, mas desde a história do goleiro Aranha estou cada vez mais afastado do tricolor.

Nesses últimos dias temos olhado os jornais parisienses para ver se falam algo sobre o pleito eleitoral no Brasil. Aqui, o assunto Marina Silva (PSB) ainda dá pano para manga (e acho que a Juliane vai poder falar disso melhor do que eu). Em terra brasilis, parece que a candidata a presidência vem perdendo fôlego cada vez maior nas pesquisas e pouco a pouco ela vai sendo associada com o que tem de pior na política brasileira. Já do outro lado do Atlântico, a gente vê o Levy Fidelix latindo...e, nesse caso, a gente pode parafrasear a Valesca Popozuda: late mais alto que daqui eu não escuto. Ainda bem. Pelo menos nesse caso.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"Me chama de bitolado"

O título desse singelo post evoca o nome de Rogério Sganzerla e seu filme trash-cult-clássico, A mulher de todos (1969). Ele fala sobre a relação de Ângela Carne e Osso, uma ninfomaníaca casada com um gordinho reaça ao extremo interpretado pelo bem humorado Jô Soares. Ângela menospreza o seu marido, Plitz, que ao longo do filme chega para o seu amor e solta a seguinte frase: “me chama de bitolado!”


Longe de mim querer bancar o Plitz – que chega a demonstrar simpatias com o nazismo ao longo do filme. Tampouco com Jô Soares que, apesar de ser mais legal nos anos 60 do que hoje em dia, ainda é o Jô Soares. O meu interesse aqui é um só: lamentar (e zoar) o fato de estarmos longe do Brasil a exatos 15 dias.

Se fosse em qualquer outra época, talvez não estivéssemos se sentindo tão alienados, mas estamos no meio da corrida eleitoral. Mesmo com acesso à internet, todo aquele saudável clima de baixaria generalizada passa ao largo da gente. Em parte isso se dá porque sabemos usar a opção de ‘bloquear usuário’ no Facebook. Em parte também porque fizemos um pacto de sangue para não ler nunca os comentários de sites de notícias. Mas em parte também porque, quando no Brasil, é impossível não ser engolido pelo clima político-eleitoral mesmo quando você vai comprar pão numa padaria. Aqui na França, o noticiário político tem discutido os escândalos e problemas do governo Hollande (que não são poucos). Mas ainda assim, eles levam a política tão a sério aqui que a própria noção de escândalo parece bem diferente da nossa. Eventualmente eles até dão uma olhadinha para outras partes da Europa, como no caso da independência da Escócia, torcendo descaradamente pelo fim do Reino Unido as we know it [detalhe: terminei o texto e o "não" venceu na Escócia]. Mas sobre o Brasil, muito pouco quase nada.

Não é bem que estejamos sentindo falta das notícias, mas sim da qualidade das notícias. Ontem mesmo o amigo Pablo Fernandes nos lembrou que Pepe e Neném participarão da sétima edição da Fazenda, uma informação fundamental [não sabe quem é Pepe e Neném? Clique aqui] para qualquer zueiro morador de terra brasilis. Por outro lado, algumas das mais importantes a gente vê no dia seguinte, como o debate dos presidentes e o atordoador “uma ova”, de Luciana Genro – direcionada ao senador Aécio Neves. Mas informações como o elenco da Fazenda, a gente perde. A gente perde os memes, a gente perde as piadas, a gente perde a baixaria e a gente perde a zueira. E longe de nós perder a zueira!


Há a apreensão também para as questões sérias: os casos recentes de homofobia e racismo no Rio Grande do Sul e no Brasil têm nos deixado um tanto quanto angustiados – lembrando principalmente dos casos do goleiro Aranha e a torcida gremista, assim como do incêndio do CTG que ia promover a união civil de casais homossexuais. Mas ainda assim não é a mesma coisa – comentamos com poucos amigos e, portanto, elas parecem existir somente na nossa seleta timeline. Essa sensação de que temos pouco – ou nenhum – poder de decidir questões no Brasil transparece na nossa postura política. Se em agosto estávamos mornos em relação às eleições brasileiras, hoje em setembro estamos em polvorosa, combinando inclusive maratonas de primeiro e segundo turno conectados na internet para acompanhar tudo que for possível. É quase como se quiséssemos participar mais agora do que quando estávamos em Porto Alegre.

A Juliane me lembrou ontem: estamos numa espécie de vácuo, porque não fazemos mais parte daquela realidade cotidiana brasileira, mas não nos integramos na realidade cotidiana parisiense. No meio do caminho, criamos nosso próprio caminho do meio, alternando em coisas que nos lembram do Brasil e tentando se integrar, pouco a pouco, ao estilo de vida parisiense. É a estratégia da zueira, é bem verdade. Mas é duro admitir que estamos ficando alienados da boa e velha zueira brasileira. Appelez-moi borné - ou me chama de bitolado!