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domingo, 28 de dezembro de 2014

Paisagens de inverno

Que aqui é inverno, geral já sabe. E como é esse inverno, já contamos aqui, mas como é a paisagem desse inverno? 

O nosso imaginário de inverno europeu é todo pautado pelo que consumimos de entretenimento no Brasil, assim temos algumas idealizações de paisagem europeias de frio. Na minha cabeça, havia alguma névoa, galhos secos, talvez neve dependendo do lugar, essas coisas. A gente inclusive tende a achar um tanto "sofisticado" essa coisa toda, mas na prática, depois de você sentir o budum do metrô ou descobrir que neve é legal em filme de Natal em Nova Iorque (na verdade pegamos pouca neve em Berlim, e foi bem chato: é ruim de passear, o bagulho derrete, molha o sapato, uó. Talvez uma nevasca seja mais bonito... ou não.), a vira-latice passa.

Mas tudo isso é para falar das paisagem que vimos por aqui nesse outono/inverno europeu. Elas são bastante diferentes do que nós, do sul, que temos/tínhamos inverno estamos acostumados, sobretudo poruqe sol que é pouco comum, e quando aparece não aquece, essas coisas. Lagartear comendo bergamota não faz muito sentido aqui no inverno, por exemplo, pois o sol não esquenta muito não (e descobrimos que a melhor berga europeia é a espanhola, que inclusive é a mais barata: é a que mais se parece com as nossas bergamotas comuns, enquanto as outras, como a da Córsega, lembram mais um limão com gostinho de bergamota, juro).

Assim, motivados pelo dia mais frio que pegamos em Paris (0 graus e sensação de... veja a figura abaixo) decidimos relembrar algumas belas (para alguns) paisagens de inverno.




Paris, dezembro.
Versailles, dezembro.

Paris, dezembro.

Paris, dezembro.
Berlim, dezembro.

Berlim, dezembro.

Berlim, dezembro.

Barcelona, dezembro.
Girona, dezembro

Girona, dezembro.

Paris, novembro.

Paris, novembro.

Cracóvia, novembro.

Cracóvia, novembro.
Praga, novembro.


Paris, novembro.


Praga, novembro.
Roma, novembro.


Bruxelas, outubro.
Dá pra reparar em algumas coisas: primeiro, o Mediterrâneo é lindo, lá tem sol e planta viva. Em Barcelona, Girona e Roma dá até pra ver um pouco de verde, um pouco de cor nas árvores, nas folhas. Segundo, que o leste europeu é realmente cinza. Quando chegamos em Praga, a moça que veio nos buscar disse que é comum o inverno de lá chegar a -10º C...e de vez em quando chega até - 20ºC!!! Quem viu nossas fotos em Auschwitz dá para ter uma noção também (disponíveis do Google Plus). Tal como nos filmes, o leste é cinza e o ocidente é coloridão, certo?

Não! Paris, Berlim e Bruxelas podem ser tão cinzentas quanto! Bruxelas, por exemplo, enquanto Paris ainda vivia dias de verão, com sol e calorzinho, já estava carregada de cores outonais, como se pode ver pela foto, que é de outubro. No caso de Berlim, até mais - obrigado, indústrias poluidoras. O inverno europeu tem a mesma cara em qualquer lugar não mediterrâneo, gente. E ainda que achássemos isso mesmo, ao ver ele ao vivo dá uma certa surpresa: árvores mortas, galhos secos, corvos ao redor. 

E o mais louco ainda é ver isso agora, em época de natal. Hoje acordamos, saímos para rua e tinha restos de pinheirinhos de natal nas calçadas. Isso porque o pinheiro é a única árvore viva que vemos ao nosso redor e o pessoal aqui usa o pinheirinho vivo mesmo. E como o bichinho morre, hoje parecia um bom dia para "reciclar" ele (leia-se, transformar o pinheiro em serragem).

As paisagens invernais aqui nas Oropa não são feias, não. Elas conseguem ter lá a sua beleza, mas tem também uma certa melancolia. E tendo a achar que depois dessa, nunca mais vou conseguir lidar bem com a tal da "estética do frio" no Brasil...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Girona, a joia da Catalunha

Hoje foi dia de visitarmos nosso correspondente na Catalunha, o Guinter, que está temporariamente instalado em Girona, que fica a cerca de 90 km daqui de Barcelona (em direção à França). A cidade, de 93 mil habitantes aproximadamente, não é um destino super turístico, mas tem o seu charme. Só para ter uma ideia do tamanho do charme: a fundação da cidade data de 79 a. C. e ela ainda preserva boa parte das suas muralhas (romanas, carolíngias e medievais). A "cidade velha" é toda medieval, por exemplo, com ruelas estreitas e caminhos labirínticos, principalmente no bairro judeu.

Passear por essas ruazinhas estreitas e claustrofóbicas dá a tônica de uma idade média sanguinolenta, onde num belo passeio você podia ser prensado numa parede e esfaqueado por alguém que não gostava da tua cara...ou do teu deus. Mas a vista das muralhas valem a pena. Nos pontos mais altos, é possível ver ao fundo os Pirineus cobertos de neve - provavelmente o mais perto de neve que veremos em toda Europa.


Na hora do almoço, o nosso guia/anfitrião nos levou ao RU da universidade, onde deu para comer bem e barato. Além disso, demos uma espiada numa universidade do século XVI que preservou boa parte de sua arquitetura.

Em comparação com Barcelona, contudo, Girona é pequerrucha. E se lá as bandeiras catalãs não tremulam em todas as janelas, o catalão parece ser falado em todos os lugares; diferente de Barcelona, onde o catalão e o castelhano se misturam. Ainda bem que o Guinter estava afiado no idioma, porque ô língua esquisita!

O nosso passeio acabou sendo mais curto do que queríamos pelo horário (dependendo do trem, a viagem pode ser de 2h). Vale ressaltar que na ida pegamos um trem regional barato que passou pelas lindas praias mediterrâneas da Catalunha. Como tava ensolarado, foi lindo demais! Saudades, sol!!! Saudades, mar!!! Na volta, porém, pegamos um trem mais rápido e mais confortável (num sistema que não deu pra entender muito bem).

Enfim, Girona é uma cidadezinha simpática na também simpática Catalunha. Ela entrou no nosso roteiro graças ao Guinter, mas ganhou um espacinho no coração. E na zueira também, especialmente tendo em vista essa foto aqui de baixo.




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Homenageando a Catalunha - parte II

Continuamos hoje a parte II do texto do Guinter sobre o procés catalão de autonomia. O texto é muito bom e a primeira parte foi ontem, para quem perdeu (é só clicar aqui , calma). Vale para entender até mesmo a nossa dificuldade, enquanto brasileiro do sul para compreender os separatismos sem cair em xenofobias e doidices afins. Um baita texto e que vale salientar: ele e as fotos são obras exclusivas do próprio Guinter: a gente só cedeu o espaço e, é claro, foi uma honra. :)

Começando por uma questão comum a tod@s: a atitude do Estado espanhol em se mostrar totalmente avesso à consulta, algo percebido como antidemocrático, em que pese as garantias de autonomia previstas na sua constituição, tem acirrado em muito as posições. Isto é, acima de tudo, querem poder simplesmente ter a possibilidade de decidir, mesmo que para dizer não à independência. Isso por si só evidenciaria a fragilidade do exercício democrático no Reino da Espanha.

Agora, para além disso, as coisas começam a ficar mais complexas. O primeiro com quem conversei mais detidamente foi um estudante de Educação Social da UdG (Universitat de Girona), no meu segundo dia em Girona. Estavam fazendo uma greve, mantendo por dois dias fechado o campus Barri Vell (que concentra os cursos de Humanas, como não poderia deixar de ser). Perguntei quem de fato defendia a independência. Me disse que havia diferentes grupos políticos, inclusive mais à direita, mas que mais seriamente a esquerda catalã (em suas diferentes tendências). Para Mas e a CiU, segundo ele de centro-direita, era apenas uma forma importante de garantir votos nas próximas eleições (oportunismo eleitoral, a gente também vê por aqui...). Na esquerda, os grupos rupturistas não compõem a campanha pelo referendo, porque defendem que uma independência política não necessariamente traz mudanças sociais. Já ele, outros grupos e partidos (como a Ezquerra Republicana, que tem deputados na Generalitat e que é o atual favorito segundo as pesquisas para a próxima eleição de presidente do órgão), entendem ser importante discutir e promover o referendo, mesmo que aliando-se momentaneamente com grupos de centro e centro-direita, e ainda que ele também entenda a importância de aproximar às questões políticas as pautas sociais (como o crescente  problema de despejos de famílias pobres e de classe média baixa, que perderam suas casas com a crise).


O segundo grupo com o qual conversei eram alguns professores da UdG, incluindo minha orientadora aqui, a professora Rosa Congost. Gentilmente me convidaram para um café, querendo saber mais sobre as eleições brasileiras (especialmente sobre o fenômeno Marina Silva), mas igualmente sobre como eu - apenas um rapaz latino-americano com alguns euros no bolso – via toda esta questão política da Catalunha. Respondi que achava muito interessante, mas que ainda estava aprendendo a respeito. Uma pergunta, no entanto, me chamou a atenção: se na América Latina havia simpatia com a causa catalã pelo fato de supostamente compartilharmos uma “experiência colonial” em comum, quer dizer, como sofrendo também do imperialismo castelhano. Bom, argumentei que, ao menos no Brasil, com exceção de pessoas mais interessadas sobre o tema (ou do público da História), a população em geral desconhece as diferenças internas da Espanha. Então, a Conquista e a exploração coloniais estão associadas ao espanhol genérico, sem considerar as diversas nações dentro da Espanha. Logo, brincaram sobre essa questão de que aqui só existe a Catalunha e mais nada. E a respeito da independência em si, tinham posições mais moderadas, não tendo certeza se seria um bom negócio, embora seguramente que se identificassem como catalães e não como espanhóis. Possivelmente por serem mais velhos, estejam mais desiludidos com toda a questão...

A última conversa que destaco foi com um dos meus companheiros de casa: trinta e poucos anos, engenheiro de recursos renováveis, ativo na militância dentro da sua área, assinante de um jornal produzido em Barcelona bancado por movimentos sociais. Ele me argumentou que, basicamente, o Estado espanhol é um “desastre”, em diferentes sentidos. Apesar de no papel - ou seja, na constituição – serem garantidos às comunidades autônomas espanholas níveis de soberania relativa a diferentes elementos (especialmente de língua, lembrando que não apenas o idioma falado na Catalunha é distinto do castelhano, mas também o galego e o basco, este sim completamente diferente), na prática o Estado espanhol ceifa uma série de direitos. Por exemplo, afirma que deve-se “espanholizar” as crianças catalãs, pois a aprendizagem do catalão prejudicaria seu domínio do castelhano (lembre-se de que os catalães são educados em ambas as línguas). O argumento da Catalunha como uma das últimas “colônias” de Castela também apareceu em sua fala. Por outro lado, os indivíduos que têm ocupados os principais cargos políticos no governo espanhol estão vinculados direta ou indiretamente ao período franquista, sendo filhos ou netos de generais e de outros colaboradores da ditadura (algo que tristemente nos soa familiar...). 

Por último, ressaltou que o argumento fiscal/econômico também importa. (Aliás, talvez o principal argumento abraçado pelas forças mais conservadoras da Catalunha que estão na aliança política pelo referendo). Atualmente, a Catalunha é responsável por cerca de 20% do PIB espanhol, recebendo no entanto bem menos do que isso. Ok, aqui está uma pauta que para nós mais se aproxima de uma visão mais reacionária do separatismo. “Produzimos mais riquezas, mas recebemos muito menos”. O meu companheiro de casa argumentou que isso tem um efeito a médio prazo de quebrar a economia catalã. De fato, não ficou claro para mim, talvez lost in translation, qual sua opinião acerca disso, ou se este é um argumento mais válido para a causa independentista. Contudo, disse que, no caso de uma separação da Catalunha em relação à Espanha, a primeira com certeza absorveria boa parte da dívida espanhola, o que seria benéfico a outras regiões. Resumindo, a questão é complexa, é não se pode reduzir a causa independentista a um único fator. Como qualquer questão histórica.


Bueno, é uma questão difícil de se compreender para um novato como eu. Se posicionar com clareza, ainda mais. O elemento econômico/fiscal, muito ressaltado pelas redes de notícias, ou ao menos pela TVE, principal canal de televisão, soa demasiado familiar, muito próximo ao argumento das elites brasileiras, e especialmente gaúchas e paulistas, sobre como trabalham tanto e são responsáveis pela riqueza produzida no país, mas que são aviltados pelos “pobres” e “vagabundos” concessionários da Bolsa-Família nordestinos. Na Espanha, geograficamente o Norte/Nordeste cultural e econômico seria o sul, a Andaluzia. Por isso, a pulga permanece atrás da minha orelha.

Contudo, também me parece verdadeiro, até o momento, que os principais defensores de uma soberania/independência estão situados mais à esquerda. E também me parece certo que a experiência do regime franquista, que proibia o uso do catalão em espaços públicos, e mesmo em cartas particulares, contribuiu para o reforço de uma identidade catalã como uma identidade política, acima de tudo. Franco, os fascistas espanhóis e a Guerra Civil de 1936-1939 implicaram uma ruptura no processo de mobilização social e política que vivia toda a Espanha naquele momento com a República. O discurso da unidade da nação espanhola, alimentado fortemente pela religião católica e o “espanholismo” (que na verdade era um “castelhanismo” disfarçado) reprimiu violentamente não apenas quaisquer discursos e práticas de contestação social, mas também - algo mui significativo para os espanhóis como um todo - as diferentes expressões nacionais que compõem o país. (O Museu de História de Girona tem uma seção muito legal só sobre a República e os seus levantes, e a cidade como um todo tem alguns espaços de memória das vítimas do franquismo). Desse modo, ao meu ver, apesar de fincar profundas raízes históricas, que remontam ao início da Idade Moderna, não precisamos voltar até a união das coroas dos reis católicos de Castela e Aragão no século XVI para compreender a briga dos catalães contra o Estado espanhol; creio que a experiência franquista dá muito o tom das expressões políticas que se têm hoje. Sob este argumento, a causa soberanista/independentista catalã me parece muito simpática, e com certeza, contaria com uma adesão imediata de minha parte.


O grande problema é como traduzir identidades e experiências políticas de um país para outro. Acho que não precisaríamos de uma pesquisa para saber que grande parte dos que hoje falam em separação do Sul/Sudeste do Brasil em relação ao Norte/Nordeste – ou do Rio Grande do Sul em relação ao resto do país - são os mesmos que relativizam a ditadura, ou inclusive defendem abertamente a sua volta, os mesmos que ressuscitam o argumento do “fantasma comunista” e por aí vai. Isto é, assumem claramente posições de direita, conservadoras, reacionárias. (É claro que, a não ser no período pós-independência e de formação do Estado brasileiro no século XIX, processo fortemente centralista, não existiram movimentos separatistas realmente sérios no país). Já aqui, o buraco é mais embaixo. E enquanto alguém identificado como politicamente “de esquerda”, isso me inquieta. A princípio, empresto minha simpatia à causa catalã, ainda que não tenha clareza sobre isso, especialmente sobre qual deveria ser seu destino, um Estado dentro da Espanha, ou separado do reino. Mas decidir sobre isso não cabe a mim, cabe aos catalães. Continuarei buscando a aprender sobre, e refinar minha posição, acompanhando de perto o procés...


PS: as informações e dados históricos, especialmente sobre os grupos políticos da Generalitat, foram extraídos de fontes de Internet e de minha absorção das informações de jornais e televisão; é possível que tenha me equivocado sobre algumas caracterizações, então sugiro consulta a outras fontes!

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Homenageando a Catalunha - parte I

O texto de hoje foi feito pelo amigo Guinter, que, assim como a gente, encontra-se desterrado fazendo doutorado sanduíche. Ele está na cidade de Girona, na Catalunha, e escreve aqui sobre algo que os jornais brasileiros tão deixando passar batido: o referendo pela Independência da Catalunha. Um texto de muita qualidade, com bastante reflexão e tem até uma zueirinha, porque ninguém é de ferro.  A gente dividiu ele em duas partes, para os leitores irem acompanhando com calma e dando uma olhada numa realidade diferente da nossa, mas com olhos atentos e mente aberta. Com a palavra, o nosso correspondente além-Pirineus. :)

Procurando entender independências sérias (e outras nem tanto): a Catalunha e seu procés

Bom, há algum tempo que vinha pensando em escrever minhas impressões e reflexões sobre a Catalunha e seu momento político. Mas lembrei que não tinha um blog ou coisa do gênero. Aí, neste momento que em terras brasileiras a nossa desprezível elite, tacanha como sempre, fala em separar o país em dois, Sul/Sudeste e Norte/Nordeste, resolvi escrever, lembrando que tenho grandes amigos que têm um blog sobre suas impressões a respeito da França. Ju e Fer, valeu pelo espaço concedido!

Estou na Catalunha há três semanas. Ou melhor, em Girona. Deve ser a terceira ou quarta cidade em tamanho na Catalunha, contando com um pouco menos de cem mil habitantes. O centro da cidade e seus arredores é bem movimentado, e o bairro histórico é muito legal, preservando inclusive uma boa extensão de muralhas do período romano/carolíngio/medieval. Sem contar museus, o parque da Devesa, e as Fires de Sant Narciss, festa local com atrações durante toda esta semana.

Bem, estou aqui há menos de um mês, ainda não conheci Barcelona (além de seu aeroporto) ou outras cidades catalãs, muito menos outras regiões da Espanha. Mas pelo convívio diário com pessoas e outras experiências, o slogan Catalunya no és Espanya começa a fazer sentido pra mim...


Creio que não haveria um melhor momento político para experienciar os particularismos catalães e suas traduções políticas. Nesses últimos meses, têm se vivido por aqui o Procés que deve – ou deveria – culminar no dia 9 de novembro, o 9N, uma consulta pela qual a população da Comunidade Autônoma da Catalunha (o Reino da Espanha, desde a constituição pós-Franco de 1978, é composto pelas comunidades autônomas, unidades políticas com relativo grau de autonomia) deve responder “sim” ou “não” a duas perguntas: 1) quer que a Catalunha seja um Estado? e 2) se sim, quer que seja independente? Ou seja, os catalães têm a possibilidade, por meio de um referendo, de decidir sobre uma questão que historicamente os têm mobilizado.


Para resumir rapidamente: a proposta de referendo foi ratificada no final de 2012 por Artur Mas, da CiU (Convergencia i Unió), presidente do parlamento catalão, a Genaralitat. No entanto, o governo central espanhol, encabeçado pelo presidente Mariano Rajoy, do PP (Partido Popular), recentemente respondeu com a impossibilidade de realização do referendo, alegando sua inconstitucionalidade. Não preciso nem dizer como os catalães chiaram. Como resposta, depois de algumas vacilações, o governo da Generalitat, através de Mas, garantiu que o referendo será realizado, mesmo que informalmente.

Antes de chegar aqui, já sabia alguns poucos elementos a respeito do sentimento de identidade catalã, e suas desavenças com a Espanha, mais especificamente com Madri. No entanto, me impressionou quando do primeiro dia em Girona, o número de bandeiras da Catalunha penduradas nas janelas, assim como mensagens que afirmavam o desejo de poder votar no 9N e a intransigência do governo espanhol.


Mas uma pergunta ficou matutando na minha cabeça: a pauta soberanista/independentista dos catalães é levantada por quais grupos no espectro político? Ou melhor: é uma causa conservadora, uma patriotada (o último refúgio dos canalhas, consultar história do Brasil), ou uma demanda de soberania e autonomia, mais progressista? Bom, como brasileiros, sabemos de fato o que é viver em um país muito diverso culturalmente. Só que essas diferenças não traduzem concretamente a ideia de sentimentos nacionais sufocados por uma unidade maior chamada de República Federativa do Brasil. Temos dialetos muito diversos e ricos, mas todos falamos português. (Talvez em termos linguísticos, algo parecido de idiomas minoritariamente falados diga respeito às comunidades indígenas, especialmente no que tange a seus direitos de receber sua educação em suas línguas originais). Além do mais, vindo do Rio Grande do Sul, eternamente desconfio da linguagem do separatismo, pois claramente se manifesta como uma pauta conservadora, preconceituosa e xenófoba. (O cenário imediato pós derrota eleitoral da direita no Brasil escancara isso). Por isso a pulga me coçava muito atrás da orelha...

Então, fui atrás de mais informações na Internet, textos e reportagens de canais (sérios) de mídia digital. (Recomendo especialmente uma entrevista com o historiador Josep Fontana, no site português Esquerda.net ). Mas acima de tudo, me pus a conversar com pessoas com as quais fui me envolvendo aqui em Girona. No hostel, nos restaurantes, na universidade, com os amigos que tenho feito...

(continuarà...)