domingo, 7 de dezembro de 2014

Parques, chineses e artistas

Sexta-feira, eu e a Ju fomos dar um passeio e a nossa ida a Conciergerie deu até um post. Mas esse não foi exatamente o melhor passeio do dia. Na verdade, o melhor passeio daquela sexta foi curtir o friozinho de outono e ir conhecer o Parc des Buttes-Chaumont, que é considerado o maior parque de Paris - e depois dar uma esticadinha até o Aux Folies, um dos nossos bares favoritos.

Para quem é de Porto Alegre e mora perto da Redenção desde que nasceu, entender os parques franceses é um mistério. Eles são muito lindos, o que não significa que eles são naturalmente lindos. Os parisienses fazem uma série de arranjos de flores e árvores para os parques e interditam a grama durante o outono e o inverno, com uma série de cuidados para preservar a beleza dos lugares. Em Porto Alegre, claro, a gente não faz isso - e mesmo assim, a boa e velha Redenção segue bonita. Outro ponto para a Redenção: o Buttes-Chaumont tem uma área de 25 hectares, enquanto a Redença tem uma área de 37,5 hectares. A Ju custou a acreditar quando eu falei para ela, mas eu já explico o porque disso.

O parque foi criado pelo prefeito Haussmann (o cara da reforma urbana), no século XIX, e tem o templo de Sibilla como seu principal destaque, Como ele fica no 19éme, numa das áreas mais próximas da periferia parisiense, ele não costuma ser muito visitado pelos turistas. E a lógica de parque aqui tem que ser pensada quase como um bosque, cheio de trilhazinhas ao redor, pequenos morros, matinhos. Mas a coisa começa a ficar surreal quando a gente descobre que o parque tem pelo menos três pontes instaladas entre os seus morros. E elas são bem grandes, o que nos deixou desconfiados com a medição do parque. Tem até cascatas artificiais nele de alguns metros de altura. Então, ao visitar o parque o porto-alegrense padrão pode até pensar que é uma barbada, que o parque é menor que a Redenção. Na prática, contudo, ele se dá por conta que está subindo e descendo morros no parque - e isso dá um belo cansaço.

Chegar até o topo do parque, claro, vale muito. A vista é ótima e tem o templo de Sibilla (que é basicamente um gazebo feito de mármore). Ao redor, dá para ter uma vista do parque mega-privilegiada, dando conta de algumas de suas cachoeiras artificiais. Deem uma olhada em algumas das fotinhos que a Ju tirou:








Depois desse passeio, fomos dar uma esticadinha até o Aux Folies, passando pela rue de Belleville - não confundir com aquela das bicicletas. Essa seria uma rua como tantas outras, mas estamos em zonas mais alternativas e aqui há também o espaço dos imigrantes. E é incrível: pouco a pouco, as lojas vão mudando sua língua. E Belleville é lembrada principalmente pela imigração chinesa, com lojas e restaurantes com escrita em mandarim e cantonês nas janelas e vitrines. Vale dar uma olhada nas roupas também, claro, que costumam ser muito baratas nessa região - e que não parece ser tão explorada pelos parisienses. Embora, claro, talvez a língua seja um problema...

Então, rumo ao bar, molhar a goela. Mas vale ressaltar que antes de passar no Aux Folies, convém dar uma passadinha também na Rue Denoyez, que é uma rua reconhecida principalmente pelo pessoal do grafite e da pichação. É uma rua bastante frequentada pelos artistas de rua, então ela tem um patrimônio massa - os caras fazem pichações e grafites para os estabelecimentos ali também. Os caras tão tendo problemas com especulação imobiliária (é, aqui também tem dessas coisas) e por conta disso estão fazendo uma campanha para se proteger desse tipo de ação que visa "limpar" a rua.




E, claro, a passadinha tradicional no Aux Folies. No outono não apetece tanto a cerveja, mas tomamos uma pelo menos, para fazer o ritual. Porque no final das contas, a gente anda com saudades também da botecagem brasileira.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Top 5: Estranhamentos do dia a dia (parte III)

Depois de três meses, ainda estranhamos alguns hábitos e engenhosidades do pessoal por aqui. Alguns, bem que podíamos adotar, outros nem tanto...

1. O caixa novo do Monoprix

Há mais um menos um mês, o Monoprix aqui perto de casa trocou o seu caixa expresso (o de cestinhos) por um caixa "automático": assim, sem a ajuda de qualquer ser vivo, você vai lá, passa suas compras na máquina, paga, ensaca. etc.. A máquina não erra o troco e sabe certinho o produto que você passou graças ao código de barras. Qual o impacto disso no mercado de trabalho? Tema de casa, gente.

Em tempo: o Fe chegou a apostar numa onda luddista, com os funcionários "sabotando" as máquinas. Mas como tudo é muito bem vigiado, cheio de câmeras de segurança, a chance é pequena. 



2. Animais de estimação sem roupas de inverno.

Em Porto Alegre é muito comum você ver cachorros com roupinhas, principalmente no frio (falamos aqui de um frio de 5 graus para cima, creio eu). Só que aqui nas Europa, onde faz bem menos do que 5 graus, os cachorrinhos parecem não estar nem aí. Em Cracóvia, Praga e Paris, cidades bem mais frias do que Porto Alegre, quando vemos os cachorros nas ruas, com seus donos, passeando, eles estão sempre sem roupa alguma. E olha que em Praga vimos isso à noite, com temperaturas já no negativo, e o cachorrinho parecia não estar incomodado não. Pense bem: ele tem uma camada de PELO, aquilo deve esquentar, né? Lição: cachorros europeus não fazem manha (contém ironia).



3. Cigarros

Os franceses fumam. E muito. E mais curioso ainda: os jovens, principalmente, parecem ser os que mais fumam por aqui. Há algumas leis que proíbem o fumo em local fechado, mas na rua é permitido, é claro. Assim, quando ainda estava quente, os bares e cafés com mesas nas ruas (aqui é muito comum, amém!), lotavam de fumantes. Isso quando não fumam o cigarro eletrônico, aquele que parece uma canetinha. Em alguns casos, o charuto também entrava na jogada. Isso estranhamos muito (e adoramos): pessoas fumando charutos na rua, caminhando, ou em um bar, sentado tranquilamente. Agora com o frio, só no relento mesmo. 



4. Baguete no sovaco.

A qualquer hora do dia tem alguém comprando um baguete e colocando ele embaixo do sovaco. Para completar, só se você for comendo o baguete. O mais fascinante é que o baguete encosta nas pessoas na rua, no metrô, se estiver chovendo ele dá uma molhadinha, se o sujeito tem asa ele faz questão de carregar o pão debaixo do sovaco mesmo (para absorver o odor?). Isso tudo é bizarro, claro, mas é bom salientar: quando o baguete é bom mesmo, ele faz uma espécie de casquinha em volta. Acho que esse tratamento dos franceses com o pão é tipo um teste de qualidade: se ficar molhado, com cheiro, ou sujo...é porque o baguete não é 100%.



5. A falta de sol

Tá, esse não deveria ser um estranhamento, mas...no último mês, acho que vimos sol somente uns 2, 3 dias. E mesmo assim, pouco sol. Hoje (amém!) tinha um olhinho de sol e eu e o Fe fomos para a rua tentar lagartear um cadinho. Mas nossa lagarteada deve ter durado menos de uma hora. Logo logo as nuvens fecharam o tempo e a paisagem seguiu cinza. Gente, vitamina D faz falta que é uma barbaridade!

Os últimos dias de Maria Antonieta

Hoje resolvemos retomar um passeio turístico que tinha ficado para trás: visitar a Conciergerie, que era o antigo palácio real francês localizado na Cité, uma famosa ilhazinha no centro de Paris. Apesar dos reis terem abandonado o lugar no século XIV, ele seguiu sendo um importante centro administrativo da monarquia francesa até a Revolução Francesa. E, de certa forma, o grande encanto da Conciergerie é ver a cela onde Maria Antonieta passou seus últimos dias. Mas nem tudo é tão fácil.

A primeira coisa que a gente pode dizer é que essa visita valeria muito (e bota muito nisso) mais a pena se a gente tivesse feito um combo: "Sainte Chapelle" + "Conciergerie". Esse combo é uma boa não só porque é econômico (você economiza 4 euros), mas também porque elas são praticamente grudadas uma na outra, fazendo parte do mesmo complexo administrativo e junto com o Palácio da Justiça. Na verdade, as duas são fruto da administração monárquica francesa antes da Guerra dos Cem Anos, então é uma forma de conhecer um pouco mais sobre os tempos da França medieval - para quem se pilhar muito, ainda tem o Museu Cluny (embora esse eu ache que deixe a desejar).

Mas há que se dizer que a Conciergerie tem também a seu favor o fato de que por ser um prédio bastante administrativo - e que tem como atrativo somente as antigas prisões da época da Convenção  e a sua arquitetura gótica - ela geralmente têm uma exposição inclusa no preço do ingresso. Entonces, além de ver o local, você vê a exposição do momento. E acho que demos sorte (embora a Ju não tenha curtido tanto): a exposição era justamente sobre os 800 anos de Luís IX, o rei da França que mandou construir aquela maravilha que é a Sainte Chapelle. O Luisito ainda tem (ou tinha), a seu favor, o fato da Cruzada que ele empreendeu ter sido um fracasso e ele ter morrido na Tunísia - e nem por isso os franceses ficam de chororô por causa do rei morto na África (estou falando com vocês, sebastianistas portugueses!).

O que eu curti na exposição foi basicamente que ela segue os caminhos da biografia que o historiador Jacques Le Goff fez sobre o rei, ou seja, ela tinha uma metodologia própria e que analisava três coisas: as aproximações e os distanciamento entre mito e realidade na figura do rei, a junção do poder político com o poder religioso na Idade Média e a memória construída acerca da figura do Luís. Então deu para ver coisas sensacionais da arte medieval, que deu um boom no século XIII exatamente pela obsessão de um monarca com a figura do martírio de Cristo. Essa figura ficou meio apagada nos séculos posteriores, mas no breve período monárquico pós-Revolução Francesa, o Luís voltou a ser lembrado como um "bom rei cristão e francês". Que beauté... 

A Ju não curtiu tanto porque, segundo ela, a figura do monarca não mexe lá muito com o imaginário dela. Mas eu vi ela bastante interessada com algumas esculturas, iluminaturas e vitrais que a exposição mostrava. E dá para dar uma abalada mesmo, deem uma olhada:





Mas o que importava mesmo na Conciergerie era ver os últimos dias de Maria Antonieta. Ir na cela onde ela ficou, esperando pela sentença final - a morte por guilhotina. Claro que antes disso, você precisa passar por uma lojinha de souvenirs (inclusive deve ter sido uma das mais caras que vimos aqui em Paris). Um troço louco ver livrinhos para crianças dizendo como a Maria Antonieta era boazinha...mas nenhum livro infantil falando de como o amiguxo Robespierre era um cara legal. Sinal dos tempos, eu acho.

Bom, o fato é que quando chegamos na reprodução da cela da Maria Antonieta, foi meio decepcionante. Estava atrolhada de turistas e, para piorar, ainda tinha uns bonecões de cera vestidos como guardas e um deles, no meio, como se fosse a própria rainha da França. Não apenas achamos ruim, mas deu aquela sensação de que o lugar era mesmo para "atrair" turista e que não adianta nada ficar achando que ela morreu ali. Tudo que tinha na cela era quase uma encenação mesmo. MAS, como a gente é brasileiro e não desiste nunca, fomos conhecer o resto das celas e descobrimos que a verdadeira cela da Maria Antonieta na verdade foi destruída, a mando do rei Luís XVIII, para que fosse erguida ali uma capela.

A capela é bem bonitinha, mas sem grandes ornamentos. E é ali que se encontra uma placa de mármore preto dizendo que foi ali, de fato, que a mulher dos brioches ficou antes de perder a cabeça na guilhotina. Valeu ter visto, pois o lugar estava menos cheio (a maioria dos turistas vai direto para a cela de "mentirinha") e, por ter virado uma capela, parecia menos...digamos, profano.

Sem sorte semelhante, o deputado jacobino Maximillien de Robespierre, figura-chave no período da Convenção e no Terror Revolucionário, tem menos destaque. Ele, assim como muitos dos políticos e cidadãos que ele mandou para a guilhotina, também passou seus últimos dias na Conciergerie. O lugar onde ele presumidamente havia ficado se tornou uma salinha minúscula, que leva a uma das saídas do lugar. Aparentemente tinha um pessoal que curtia ele nos anos 1930, mas no século XXI ele parece estar em baixa.


Mas e os últimos dias de Maria Antonieta? A Conciergerie diz algo sobre eles? Bem, sim e não. É legal ver onde ela passou, de fato, seus últimos dias. Numa das salas têm inclusive um vídeo lembrando o seu julgamento. Porém, o que tudo indica é que Maria Antonieta estava completamente isolada naquele momento. Sem os seus filhos e com o marido tendo sido executado alguns meses atrás, ela era uma mulher que se apegara a religião nos seus últimos momentos. Ela havia virado, durante a Revolução, símbolo do desperdício e da futilidade da corte. Para alguns jacobinos, ela era inclusive o símbolo de uma monarquia que sequer tinha amor à pátria (afinal, ela era uma austríaca e não uma francesa). O museu tenta captar essa sensação de isolamento, mas com tantos turistas e com uma cela de "mentirinha", isso não fica lá muito claro.

É um bom passeio, claro. Se você tem tempo em Paris e quer ter essa experiência, vale a pena (embora eu recomende fortemente ir na Sainte Chapelle depois). E, senão por outra coisa que não seja justiça poética, vale a pena comer um brioche no jardinzinho da Conciergerie. Só pela zueira, claro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

E na Biblioteca Nacional eu me perdi...

"Você já esteve dentro de uma enciclopédia?" - perguntava o outdoor da ala oeste da Biblioteca François Mitterrand. Achamos graça, mas olhamos em volta; estávamos cercados por livros. Por todos eles, dispostos em quatro gigantescas estantes em formato de "éle".



Chegamos lá indo pela rua Fernand Braudel: bom presságio! Sempre gostei do Braudel - historiador, veio para Brasil, faz umas metáforas lindas sobre a espuma das ondas. E na passagem, uma pracinha: a square James Joyce, meio parada para uma manhã fria de outono. Auspicioso demais!

Ao chegarmos, uma escadaria de madeira gigantesca abre o caminho até a Biblioteca. E eu admito: nunca tinha visto algo assim. Como entramos pelo lado oeste, corremos feito umas crianças de 30 anos e fomos até a ponte que liga a Biblioteca até a outra margem do Sena. Uma paisagem maluca, algo que parecia um escritório burocrático dos livros, mas cheio de cores outonais. A entrada era no andar de baixo, onde um pequeno bosque ficava no miolo do prédio. Tínhamos que entrar, mas queríamos ver a "superfície" ainda. A ponte, os pequenos jardins...




Na descida, uma grata surpresa: um cinema da biblioteca! 6 euros a sessão na matinê, que é lá pleas 10h da manhã - e com muita coisa interessante. Com pipoca ficava mais caro, claro, mas parecia excelente. Quem sabe numa próxima?

O jeito era entrar, estava frio lá fora. E para entrar, claro, é de graça. É uma biblioteca pública, ora. Mas se quiséssemos sentar numa das 10 áreas para estudar, teríamos que pagar 3,50 euros. Se quisermos pesquisar nos manuscritos e livros antigos, 8 euros por 3 dias. Por hoje, era melhor só conhecer a Biblioteca em seus cheiros e suas cores. E lá fomos nós! Só dar uma passadinha nela, contornar seus prédios principais. Opa, uma livraria! Com 10 milhões de livros disponíveis ao nosso redor, tivemos que passar na livraria.

2 livros e 25 euros depois - é, não deu para economizar dessa vez -, seguimos o barco. As salas amplas, espaçosas. Os corredores então, com cadeiras e mesinhas, com tomadas e tudo, permitindo que se trabalhasse ali mesmo, no meio da biblioteca. Traz teu notebook, teu livrinho, teu caderno e senta ali. Tem até tomadas e wifi gratuito. Mas a gente seguiu...



A gente seguiu até uma pequena exposição gratuita sobre mapas e cartografias, apresentando uma réplica gigantesca dos globos de Coronelli, um cartógrafo francês do final do século XVII. O Brasil tava ali, representado inclusive pela nosso peculiar hábito de devorar e deglutir o estrangeiro. Mas o globo era muito mais, era um show à parte. A exposição em si, apesar de minúscula, é um sonho geográfico. Exposições lindas na biblioteca, embora a maioria delas fossem pagas. Mas dá para olhar no site deles.


E do lado: um café. Um café na biblioteca, gente! Com comidinhas quentes e frias, mesinhas e, principalmente, uma honesta máquina de café por 1 euro (ok, na Sorbonne o café sai por 0,50...mas 1 euro ainda tá valendo). Não sentamos ali. Café da manhã reforçado, sabe como é. E então seguimos, fomos mais além. Fomos dar a volta.

Quando finalmente chegamos de volta na entrada, deu aquela vontade de ficar na biblioteca de novo. A Juliane bem que disse: eu poderia morar aqui! Será mesmo? Voltamos para o topo enquanto eu ficava pensando nisso.

Na parte de cima, algumas carrocinhas de comida se instalavam para aproveitar o horário de almoço: comida tailandesa e um curioso pizzaiolo que dirigia um "carro-forno" (pena que não tiramos fotos dele). Numa das estantes em "éle", uma lojinha com objetos nerds - alguns excelentes - e com cinema dentro: ali é a área da MK2, onde se concentra basicamente a "videoteca" francesa. Ó, céus!

Construída inicialmente em 1461, ela só ganhou esse formato (que é o da Bibliothèque National François Mitterrand) em 1996, quando as obras ficaram prontas. E é um templo mesmo. É o que eu acredito que deveriam ser as grandes bibliotecas, mas também as pequenas: um lugar massa para a gente poder curtir os livros - mesmo que seja só a presença física deles. Eu moraria dentro dessa biblioteca: eu poderia morar nessa enciclopédia gigante.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Paris vaut bien une messe

Henrique IV, um dos reis que essa terra já teve, em uma artimanha para agradar a galera se converteu ao catolicismo (pela segunda vez) e lançou a seguinte frase: "Paris bem vale uma missa". Bom, isso aconteceu já faz um tempinho, lá por 1593, mas Fernando e eu, que não somos religiosos, concordamos: vale mesmo! Passear pelas igrejas de Paris é ser exposto a uma aula de História, seja da Arte, ou da própria França. 

Logo que chegamos fomos nas icônicas e famosas, agora com mais calma temos visitado as não tão famosas e nem tão bonitas, mas cheias de história. Ainda faltam algumas da nossa lista, mas já dá para ter uma noção da coisa toda. 

Notre Dame (4º arrodissement)

A Notre Dame é um dos cartões postais de Paris: uma das mais antigas catedrais em estilo gótico (a-do-ro!) francesa, o início da sua construção data do século XII, foi cenário do famoso romance Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo (1831). Foi um dos primeiros lugares que fomos, salvo engano, e é muito impactante ver um lugar desses, que faz parte do seu imaginário, ali, ao vivo. Porém, foi um dos primeiros lugares que sentimos a dessacralização (no mau sentido) total do patrimônio histórico/espiritual: a horda de turistas tirando selfies, conversando aos berros e até dando cambalhotas (sim!) naquele espaço estragou bastante a nossa experiência. 




Sacré Coeur (18º arrodissement)

Outro cartão postal da cidade, a Sacré Coeur situa-se no topo do monte (em Montmartre) e é "novinha": o início de sua construção data de 1875 e foi construída para pagar uma promessa pós guerra franco-prussiana. Atrai milhares de turistas e pickpocktes também, mas tem uma belíssima vista de Paris.


Saint Chapelle (1º arrodissement)

A Saint Chapelle é a menina dos meus olhos, gente. Quando entramos na capela e vimos aqueles vitrais, ali, assim, tão lindo, marejei os olhos, confesso. A igreja é do século XIII, gótica, e esta em reforma agora, assim a sua fachada está comprometida (ela não é propriamente atraente por fora), não tendo a suntuosidade das outras. Mas por dentro...não vou nem colocar voto dos vitrais porque nenhuma foto vai ser condizente com a beleza que eu vejo ali. Durante a Revolução Francesa virou centro administrativo da galera. Detalhe: essa é a única igreja que a gente paga para entrar, e vale cada centavo. Uma pena só que o principal vitral, que á rosa que conta o Apocalipse, está em restauro.


Saint Eustache (1º arrodissement)

Com sua construção iniciada em 1532, é mais uma das preciosidades góticas da cidade. E é gigante, e um tanto sombria: com luzes amarelas e vitrais escuros, a luz no final do dia fica bem soturna... Ela chegou a virar um estábulo durante a Revolução Francesa, mas antes disso ela chegou a ser uma das mais populares catedrais francesas, sendo usada para o batismo de Luís XIV e para o sepultamento da mãe de Mozart.


Saint Germain l'Axerrois (1º arrodissement)

Bem pertinho do Louvre, essa igreja até está meio caída por fora, mas vale a visita, pelo menos pelo fetiche: foi das torres dessa igreja e do toque de seu sino que foi dado o sinal para o massacre de protestantes na Noite de São Bartolomeu (1572). Curioso é que não tem nada na Igreja que lamente o ocorrido. Um pedido de desculpas, sei lá...


Saint Germain de Près (6º arrodissement)

Vimos essa meio sem querer, tão sem querer que a gente nem tem foto dela por fora... e depois descobrimos que ela é mais antiga de Paris ainda em pé: ela é do século VI, gente. Tipo, ela é da época dos francos, bem antes de existir a França mesmo! E é aqui também que está enterrado o René Descartes, logo...vale muito.



Saint Gervais Saint Protais (4º arrodissement)

Essa é do século XV, não tão velhinha quanto as outras, mas tem seu charme. Nos bancos do coro, tem gravuras encrustadas na madeira indicando ofícios da cidade. E ela tem também uma história trágica, por ter sido atingida por um míssil na Primeira Guerra Mundial que matou alguns de seus fieis. Mas a lembrança mais viva que eu tenho dela agora é do Fernando tomando um xixi de paroquianos porque ele cometeu a "bobagem" de ter ficado de costas para o altar...errou feio, errou rude!


Saint Merri (4º arrodissement)

Mais uma das góticas lindas daqui, essa do século XVII, com detalhe para a estátua de um simpático demônio chamado Baphomet que fica no pórtico. Ele é bem pequenininho, mas dá para ver o feioso ali se vocês derem zoom na foto. Infelizmente não deu para entrar nela no dia que fomos, mas vale pela curiosidade.


Saint Paul Saint Louis (4º arrodissement)

Igreja do século XVII construída por Luís XIII em homenagem aos seus bróders jesuítas. Aqui predomina o estilo barroco mesmo - mas diferente do que a gente viu no barroco polonês e no barroco tcheco. Aqui há menos ouro e menos suntuosidade - o rococó tá na arquitetura mesmo. Isso porque durante a Revolução essa igreja foi palco de um massacre de padres e também se tornou um "templo dedicado à razão", em 1801.


Saint Sulpice (6º arrodissement)

Essa aqui é famosa porque aparece n'O cógido da Vinci, mas ela tem outras qualidades também: é considerada a segunda torre mais alta de Paris (dá uma vertigenzinha de olhar), o início de sua construção data de 1646 e é considerada romântica em sua arquitetura. Durante a Revolução Francesa ela foi fechada, se transformando em um "templo da razão" (que nem a St. Paul): há uma inscrição quase ilegível em uma das portas, vimos isso graças ao guia que tínhamos em mão, mas mal aparece em fotos de tão apagado.


Tour Saint Jacques (4º arrodissement)
Essa torre é tudo o que resta de uma igreja, construída no século XVI, e que tem sua arquitetura denominada como "gótico flamboyant" - que é essa mistura de gótico com barroco que os franceses têm por aqui. A torre também é lembrada como Saint Jacques de la Bouchérie, em homenagem principalmente aos açougueiros da antiga região do Marais que financiaram a sua construção. Quem caminhar pela Rivoli não tem como perder ela de vista.



Ainda há outras igrejas a citar (e a visitar), sendo que também valeria incluir aí a Grande Mesquita de Paris: ela foi construída em 1929 e chama atenção do público pela arquitetura que imita o estilo de Córdoba.

Quem vem para Paris e fica pouco tempo não consegue dar conta de tantas igrejas, nem a gente consegue, mas que vale uma missa, isso vale.






terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Livros e mais livros na praça Saint Michel

Eu admito que adoro uma livraria. Adoro ficar vendo os livros, vendo o que eu posso e não posso comprar. Gosto de cheiro de livro novo, mas não desprezo nunca um sebo (pelo contrário). O problema é que aqui em Paris, como o custo de vida é caro, a gente foi econômico nos livros até agora. Tínhamos ido até a livraria La Brèche, na Dausmenil, uma livraria de esquerda ligada ao Noveau Parti Anticapitaliste da França. É uma ótima livraria, com muitas obras de história e teoria social. A gente tá devendo outra visita para eles lá, quem sabe antes de voltarmos...

Mas esses dias a Juliane tinha ido para a Sorbonne e eu fiquei em casa. Quando ela voltou, me contou toda empolgada sobre a praça Saint Michel e suas livrarias. Claro que ela sabe como me seduzir ao falar de livros: muitos e com bons preços! Opa!

Hoje então fomos dar esse passeio pela rua e gente...o troço é inacreditável. Em pouco menos do que 200m, dá para encontrar três grandes livrarias onde livro novo e livro velho dividem prateleiras. E aí é fácil de encontrar bons preços.

Na primeira livraria que fomos, indicado pela Ju, paramos na Gibert Jeune. Fundada em 1886 e desde 1929 na place Saint Michel, os donos criaram várias livrarias - e cada uma delas com uma temática diferente: esoterismo, ciências sociais e ensino, sebos, bem-estar e médicos, papelaria, direito e economia e, por último, línguas e letras ao redor do mundo. Eu, claro, quis ir direto na livraria de História deles. E foi impressionante.


Na verdade, estonteante é a palavra certa. Vertiginoso. É livro demais! A sessão de História apresenta uma variedade incomensurável de livros, divididos em tantas categorias que chegam a fazer um historiador sonhar que outro mundo é possível. Por exemplo: eu pesquiso História do Trabalho. Nunca no Brasil uma livraria fez uma sessão sobre isso. Isso não quer dizer que elas sejam ruins, mas convenhamos que por não ser um campo lá muito legitimado, as livrarias geralmente têm somente uma estante de "História" e era isso. Pois é, na Gibert Jeune tinha umas prateleiras só para isso. E centenas de outras categorias diferentes! Vertigem é a palavra! Mas admito que fiz minhas comprinhas, saí de lá tendo gastado 9,30 euros comprando dois livros de bolso - um do Fernand Braudel e outro da Michelle Perrot.

Ponto fraco da livraria: estudos de gênero. A Ju tava procurando alguns livros da Judith Butler e a livraria não tinha nada nem dela, nem da Beatriz Preciado e, pasmem, nem da Simone de Beauvoir. Na real, achamos essa parte bem pouco contemplada na livraria (com apenas três prateleiras de uma estante de nove). A La Brèche é bem melhor nesse ponto! Na segunda Girard Jeune encontramos Simones, em um espaço ínfimo dedicado aos "estudos de gênero".

Depois de quase uma hora chafurdando entre os livros de História, Filosofia e Sociais, fomos então para a de Letras e Línguas, a pedido da Ju. Mas admito que foi bem legal! Eles têm um espacinho de literatura brasileira (Jorge Amado, Machado de Assis, Euclides da Cunha), mas o mais legal é isso: os livros dessa área são aqueles escritos pelos falantes da língua mesmo, ou seja, eles estavam todos em português. E o mais impressionante é que eles tentam mesmo colocar todos os países - embora sejam os anglo-saxões que têm mais espaço, com um andar todo dedicado a eles. E foi lá também, entre a literatura francófona, que a Ju comprou dois Flaubert e um Zola por 5,89 euros! E essas foram as nossas compras do dia: 5 livros por míseros 15,19 euros.

Mas isso não quer dizer que tinha acabado o nosso passeio pelos livros. Encontramos ainda mais duas livrarias no caminho, pela Boulevard Saint Michel (basta seguir a boulevard a partir da fonte que tem na praça). Lá vimos a Boulinier e a Gibert Joseph, ambas duas grandes e boas livrarias do Quartier Latin.

A Boulinier é mais especializada em livros antigos, cd/dvd e quadrinhos. Mas ela tinha a promoção mais ousada vista até então - balaios de livros que saíam por 0,20 centavos cada! Uma pechincha! Claro que não deu para encontrar nada lá muito bom, mas vale um dia de garimpo para quem tá querendo uma promoção do tipo "o-patrão-enlouqueceu". Para os historiadores, aviso: encontrei uma edição do Guilherme, o Marechal (do Duby) por míseros 3 euros. E tava bem inteira!


Já a Gibert Joseph é uma livraria que lembra mais as nossas megastore de livros, como a Saraiva e a Cultura. Ela é muito boa, mas se apega um pouco demais a ideia de "público diferenciado", então não espere encontrar muitas pechinchas (mas elas existem, só pra deixar claro). De novo, a parte de História era sensacional em termos de quantidade - os franceses realmente são obcecados com o meu metier. Mas a parte de estudos de gênero, bem...de novo ela deixava muito a desejar. E na verdade, mostrei para a Ju também que a própria parte de estudos sobre a escravidão também era bem fraca (somente duas prateleiras em toda a livraria). Claro que se a gente compara com as livrarias brasileiras, parece até bastante. Mas é aquela coisa: há áreas que estão bem melhor contempladas do que outras. É bizarro ter pelo menos quatro estantes para Idade Média e duas prateleiras para a escravidão, diga-se de passagem. E vale salientar que ela não é do mesmo dono da Gibert Jeune (elas se separaram em 1929).



O saldo final do passeio por essas livrarias? Positivo, claro. Os preços são ótimos para quem lê em francês - e, dependendo do caso, até para quem lê em outras línguas. Vale garimpar mesmo, embora a gente tenha que ter em mente que apesar dos preços, eles não são sebos tradicionais, onde você pode tentar negociar. Ali a coisa é bastante formal mesmo: você compra um livro com o preço estipulado e deu. Também, era esperar demais, né? Saldão e zueira, só no Brasil mesmo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Pelos trilhos do metrô de Paris

Quando chegamos em Paris, eu e a Juliane ficamos encantados com o metrô. Não é vira-latismo, não, gente, mas é que o troço é incrível mesmo. A gente em Porto Alegre discute bastante (e sofre bastante) os problemas de mobilidade urbana que temos numa cidade que tá longe de ser grande. Os amigos de São Paulo e Rio de Janeiro, que têm metrô a disposição, reclamam também. Superlotação, aumento abusivo de preços, formação de cartéis, corrupção nas licitações, enfim...a gente vem de uma terra onde cada vez mais se adota o modelo americano de transporte (ou seja, privado e focado na indústria de automóveis) e cada vez menos se olha para modelos de mobilidade urbana pública - e aqui dá para citar uma porrada de exemplos antes mesmo de falar de Paris, com suas bicicletas e carros para alugar, ou seu transporte público de qualidade, pontual e que atinge as principais linhas urbanas.

Porém...o metrô de Paris também tem seus percalços. Mas acreditem: eles são bem diferentes do que estamos acostumados no Brasil - quer dizer, mais ou menos.

1) Fedor: Fedor é um problema que já estamos habituados em Paris. Sabemos que muitos dos parisienses não compartilham das noções de higiene de nós selvagens. Mas uma ida ao metrô em certos horários é uma tensão olfativa. Primeiro, porque nas galerias é possível sentir um cheiro de urina muito forte em várias estações. O tradicional xixi matutino, que não pode esperar para ir até o banheiro...pois é, ele tá ali, em algum lugar, exalando amoníaco pra gente de manhã. E, dentro dos carros, vira e mexe passa alguém cujo banho já perdeu o prazo de validade. Nos finais de semana os parisienses e os turistas lotam os metrôs e aí tem que preparar o nariz para o choque.

2) Zueirinhas intencionais (eu acho): Dentro dos vagões há avisos de segurança do metrô que, possivelmente tentando atingir um público infantil, usam como mascote um coelho rosa. O coelho geralmente aparece com as portas batendo nas mãos dele, deixando bem claro o que acontece se você tentar segurar a porta para aquele seu amigo mais boca aberta. Contudo, sempre tem zueira por aí e um coletivo artístico resolveu dar uma zuada e fazer um adesivo mostrando o mesmo coelhinho rosa se machucando. Porém, o aviso dizia para não fazer "helicoptaire". E mais estranho ainda: o coelhinho rosa estava agora com suas calças abaixadas, provavelmente com as portas do metrô prensando o seu...bem, vocês entenderam.

Aviso original

Zueira francesa

3) Podreiragem: Paris é uma cidade bem limpa, mas não pense que os parisienses não jogam lixo no chão. Eles jogam, sim (e bastante). Contudo, eles têm uma grande quantidade de funcionários públicos e máquinas que limpam as ruas e calçadas da cidade (principalmente a dos bairros mais chiques). No metrô não é muito diferente, mas dependendo da linha você vai ver jornais e papéis atirados no chão, no maior desdém com a coisa pública. Ah, é, o metrô é 100% público em Paris (e o comunismo ainda não chegou aqui, gente...juro!).

4) Artistas do metrô: Tem gente que acha lindo e eu só acho chato. Não curto mesmo. Algumas das nossas experiências com artistas do metrô em Paris incluem um acordeonista tocando Michel Teló enquanto passávamos na frente da torre Eiffel e um teatro de marionetes de um homem só, no meio do vagão onde estávamos. Há que se considerar também os cantores de ópera, os violeiros e os trompetistas. Nos finais de semana o fluxo de artistas aumenta nos metrôs...para a tristeza do carrancudo aqui.

5) Parkour na roleta: Parkour é um "esporte" (hahaha) que os franceses inventaram que é tipo uma corrida de obstáculos, mas sem a parte da corrida. Mas no metrô é que eles se destacam nisso. As roletas são relativamente bastante seguras, mas são todas eletrônicas. Você bota o bilhetinho, ele te devolve e a cancela abre para você passar. Mas dependendo do caso, dá para ser rapidão, pular a roleta, dar um chute na cancela e sair correndo pegar o metrô para não chegar atrasado. Há outras táticas também, como a da encoxada: o sujeito bota o bilhetinho e antes dele passar a roleta, você encoxa a pessoa e os dois passam juntos na mesma roleta (nunca fizemos esse, gente). Ou seja, os parisienses também têm seus "jeitinhos".

6) Mendicância: Já comentamos muito isso, mas Paris é uma cidade com grande número de mendigos - embora seja, sem dúvida, uma situação diferente da que estamos acostumados no Brasil. O metrô é um espaço privilegiado para muitos desses mendigos que fazem sempre um discurso semelhante ao que se vê no transporte público brasileiro: lamentam sua situação e pedem um dinheiro para ajudá-los (alguns falam que o dinheiro era para beber ou para fumar, o que é ok também). Mas é de se notar também que nos dias mais frios, é possível notar também que o número de mendigos dormindo nas estações aumenta drasticamente. As estações são protegidas do frio, logo é uma solução encontrada e que aparentemente não faz com que a polícia francesa tenha ímpetos de ficar humilhando essas pessoas - bem diferente do que vemos no trato da Brigada Militar com mendigos e moradores de rua em Porto Alegre.

7) O narrador da linha 4: De todas as coisas que mais nos chamam atenção no metrô de Paris, nenhuma é mais zueira do que o narrador da linha 4. Algumas linhas do metrô tem uma gravação no alto-falante que informa as estações. Não são todas, claro, mas sim as principais. A linha 4, que conecta Paris inteira, tem o narrador mais simpático. Quando ele fala "Saint Sulpice", a Juliane se derrete! A voz é melodiosa e alegre (aposto que ele não nasceu em Paris) e certamente contribuiu muito para melhorarmos a pronúncia do nosso francês.